MP quer condenação dos 28 arguidos que advogados dizem ser duplamente vítimas
Pedrógão Grande
27 de jan. de 2022, 11:35
— Lusa/AO Online
Para
o ex-presidente da Câmara de Pedrógão Grande Valdemar Alves e o antigo
vereador Bruno Gomes, a procuradora da República Catarina Lopes pediu
prisão efetiva.“Atenta a quantidade de
crimes, a gravidade, as molduras abstratas, a reiteração, achamos que
devem ser condenados a penas de prisão efetiva”, afirmou Catarina Lopes
nas alegações finais.A magistrada do
Ministério Público (MP) admitiu que, caso o tribunal entenda que se
trata “apenas de uma resolução criminosa” e opte pela suspensão da pena,
“essa suspensão não pode ser só daquelas com pouca eficácia”, mas tem
de incluir a reposição de montantes monetários.O
MP sustentou que com a sua atuação “prejudicavam os municípios de
Castanheira de Pera e de Figueiró dos Vinhos”, também atingidos pelos
incêndios de junho de 2017, assim como “prejudicavam outras famílias que
precisavam, essas sim, de apoio, realmente”, classificando isto como “o
mais chocante da atuação dos arguidos”.Quanto
aos outros 26 arguidos, a procuradora da República defendeu que “devem
ser condenados em penas de prisão suspensas”, pedindo, igualmente quanto
a estes acusados, “condições de suspensão efetivas e eficazes, que
passem por devolver tudo aquilo que receberam, aqueles que ainda não o
fizeram”.Já os advogados representantes da
União das Misericórdias Portuguesas, Fundação Calouste Gulbenkian, Cruz
Vermelha e Fundo Revita, entidades que se constituíram assistentes ou
demandantes, pediram que os arguidos devolvam os apoios que receberam
para a reconstrução de casas que supostamente não eram de habitação
permanente.O Revita é um fundo de apoio às
populações e à revitalização das áreas afetadas pelos incêndios
ocorridos em junho de 2017. Agrega a recolha de donativos em dinheiro,
em espécie de bens móveis ou em serviços.No
que diz respeito aos advogados dos arguidos, Bolota Belchior, que
defende Valdemar Alves, destacou que “este processo nasceu e morreu no
Fundo Revita, nada tem a ver com a autarquia” de Pedrógão Grande, e
rejeitou a existência de prejuízo, pois “havia dinheiro para as
habitações permanentes e não permanentes”.A
existência ainda de dinheiro no Fundo Revita e que este não excluiu
casas de segunda habitação, mas tinha um critério de priorização, foram
argumentos apresentados em sede de alegações por vários causídicos.Da
parte de advogados, que citaram várias testemunhas e até “o próprio
Presidente da República”, ouviu-se que “era tudo para reconstruir”.“Era para reconstruir tudo até ao Natal [de 2017], até as capoeiras. Não são capoeiras, são casas”, disse um advogado.Outros
suscitaram as questões da criação de legislação ‘fast’ logo após os
incêndios, a falta de fiscalização das entidades e a ausência como
arguidos de “todos aqueles que geriram milhões”, numa referência ao
fundo Revita.“E ninguém da administração
pública que cometeu ou cometeram erros foi ou será alguma vez sancionado
por esses erros”, destacou um defensor, enquanto vários alertaram que
há proprietários de habitações reconstruídas que ainda não receberam as
respetivas chaves.Victor Faria, advogado
de Bruno Gomes, disse que a investigação que levou ao julgamento
procurou “bodes expiatórios e culpas para transmitir essas imagens e
acalmar os impulsos mediáticos e para dizer ‘estão aqui os culpados’”,
notando que o ex-vereador e o antigo presidente da Câmara “saem deste
processo de mãos limpas”.Um outro advogado
assinalou que, embora este não seja um processo da comunicação social,
esta “prestou um mau serviço” aqui, notando que Pedrógão Grande dispensa
novas condenações.“Estas pessoas estão a
ser duplamente vítimas. Foram vítimas em 2017 e estão a ser vítimas
agora, pelo enxovalho a que estão a ser sujeitas”, acrescentou um
causídico.O incêndio que deflagrou em 17
de junho de 2017 em Pedrógão Grande, distrito de Leiria, e que alastrou a
concelhos vizinhos, provocou 66 mortos e mais de 250 feridos, sete dos
quais graves, e destruiu meio milhar de casas, 261 das quais habitações
permanentes, e 50 empresas.