MP pede condenação de antigo presidente do Santa Clara na insolvência da Azores Parque
17 de abr. de 2023, 18:52
— Lusa
As alegações finais
deste processo decorreram hoje no Tribunal Judicial de Ponta Delgada, na
sequência da repetição do julgamento de insolvência da Azores Parque,
depois de o Tribunal da Relação de Lisboa ter anulado a sentença do
primeiro julgamento.O Procurador do
Ministério Público disse que “não restam dúvidas” da afetação de Rui
Cordeiro "pelo incidente de insolvência culposa", defendendo o mesmo
para Carlos Silveira e Khaled Saleh, os dois ex-administradores da
empresa condenados no primeiro julgamento.O
MP pediu ainda a aplicação ao ex-presidente do Santa Clara da
"inibição", por um período, "no mínimo, entre seis a sete anos” do
exercício de cargos comerciais.No primeiro
julgamento, o ex-presidente do Santa Clara foi ouvido na condição de
testemunha, tendo a sentença concluído pelo “caráter culposo da
insolvência” da Azores Parque, com “afetação pessoal” de Carlos Silveira
e Khaled Saleh.Segundo o MP, “foi Rui
Cordeiro que deu ordens para a venda” da Azores Parque e “quem mandava
era” o ex-presidente do Santa Clara, enquanto "Carlos Silveira,
deslumbrado, foi abrindo as portas a Rui Cordeiro”.Para
o advogado do ex-presidente do Santa Clara, “a prova produzida não
permite concluir que Rui Cordeiro era administrador de fato” da antiga
empresa municipal.“Qual o interesse real
de Rui Cordeiro sendo administrador de fato?”, questionou, dizendo que o
ex-dirigente do Santa Clara foi “a única pessoa que devolveu o
dinheiro” por “praticar atos de consultor” da antiga empresa municipal.A
advogada de Carlos Silveira considerou que Rui Cordeiro “deverá ser
culpado como administrador de fato” da Azores Parque, defendendo que “a
culpa” do ex-presidente do Santa Clara deve “ser muito superior à de
Carlos Silveira e Khaled Saleh”.A advogada
sublinhou que o seu cliente "nunca" tirou benefícios da administração
da Azores Parque, mas Rui Cordeiro “elaborou atas, planeava e colocou lá
quem quis”.“O que foi feito [com a venda da Azores Parque] é merecedor da abertura de um processo-crime”, disse a advogada.Já
a advogada de Khaled Saleh alegou que Rui Cordeiro "é que tratou do
negócio de aquisição da Azores Parque" e o seu cliente “não tinha
conhecimento sobre a situação" da antiga empresa municipal.À
data dos factos – 2019 – a presidência da Câmara Municipal de Ponta
Delgada era ocupada pelo atual presidente do Governo Regional dos
Açores, José Manuel Bolieiro (PSD).A
sentença de primeira instância, proferida em 19 de abril de 2021, ilibou
Bolieiro, a antiga presidente da Câmara Municipal Maria José Duarte e
Humberto Melo, que era, então, vice-presidente da autarquia, de
insolvência culposa.Hoje, o representante
legal de José Manuel Bolieiro e Humberto Melo, bem como o advogado da
ex-autarca, destacaram "a boa gestão", defendendo a absolvição.Segundo
alegaram, os autarcas "não conduziram" à insolvência da Azores Parque e
a empresa "não estava insolvente" entre 2015 e 2018.Para
a advogada que representa um dos bancos credores da Azores Parque, “a
atuação dos administradores camarários” veio a traduzir-se “num
verdadeiro agravamento das contas da empresa, pelo que devem ser "todos
responsabilizados" na insolvência culposa e ao pagamento de seis milhões
de euros.Quanto ao conselho de
administração, quando a empresa estava na esfera dos privados, a
advogada disse que devem ser "todos responsabilizados pelo conjunto de
negócios prejudicais".A Azores Parque -
Sociedade de Desenvolvimento e Gestão de Parques Empresariais era uma
empresa municipal de Ponta Delgada que visava a promoção e
desenvolvimento urbanístico imobiliário de parques empresariais.A
venda da empresa foi aprovada em Assembleia Municipal, em novembro de
2018, e oficializada em março de 2019, altura em que a sociedade
comercial Alixir Capital comprou 102 mil ações, com um valor nominal de
cinco euros cada, perfazendo um total de 510 mil euros, mas que foram
adquiridas por 500 euros.Em oito meses, a
Azores Parque alienou vários imóveis por 705 mil euros, mas retirou todo
o dinheiro das contas bancárias antes de ser declarada insolvente.