Mota Amaral nunca temeu ou desejou que EUA alienassem os Açores
Hoje 15:47
— Lusa/AO Online
“Nunca
temi nem desejei uma coisa dessas”, afirma João Mota Amaral à agência
Lusa, a propósito dos 50 anos da autonomia, admitindo que, “da parte
americana, existia e existe um interesse nos Açores”.No
sábado, 27 de junho, assinala-se meio século sobre as primeiras
eleições legislativas regionais, realizadas em 1976, tal como na
Madeira.Para o também antigo presidente da
Assembleia da República (2002 - 2005), o interesse americano era na
perspetiva de que os Açores fossem “uma região estável, onde as coisas
funcionassem e, se possível, se desenvolvessem”.Os
Estados Unidos da América (EUA) estavam dispostos a apoiar a
independência dos Açores em 1975 se Portugal derivasse para o comunismo,
segundo especialistas em geopolítica e historiadores, bem como
documentos secretos desclassificados por Washington.De
acordo com documentos secretos norte-americanos que foram entretanto
divulgados publicamente, Washington - que deu indicações aos seus
militares para defenderem a Base das Lajes a tiro, se necessário - tinha
vários cenários previstos para os Açores para salvaguardar os seus
interesses geopolíticos.Mota Amaral faz
notar que “quando arrancou a autonomia, na primeira sessão preparatória
da Assembleia Regional, esteve na região o embaixador dos EUA em Lisboa
[Frank Carlucci]”, a seu convite, o que “foi muito contestado pelos
responsáveis nacionais”.“Era indispensável
que os EUA dessem uma palavra de apoio às novas instituições
[democráticas dos Açores], que concretizaram através de ajuda financeira
ao nosso desenvolvimento. Durante muitos anos, recebemos da parte
americana uma ajuda financeira indispensável”, afirmou.Apesar
de suspeições de Lisboa sobre uma eventual “diplomacia paralela” com os
EUA, diz o social-democrata, as suas relações com o país “sempre foram
feitas à luz do dia e conhecidas pelos responsáveis nacionais”, no
âmbito do que se designava como o ‘lobby’ açoriano em Washington.Este
‘lobby’ envolvia políticos norte-americanos de origem açoriana com
assento no Congresso e Senado federais, e também a nível estadual, de
forma predominante em Massachusetts, Califórnia e Rhode Island, a par de
elementos do clã Kennedy, como Patrick Kennedy, sobrinho do antigo
Presidente dos EUA.O primeiro líder do
Governo Regional (1976 - 1995) considera que “seria vantajoso" reeditar o
‘lobby’ açoriano nos EUA, apesar de presentemente se estar a "procurar
fazer uma nova definição geoestratégica mundial”, o que “torna
extremamente difícil o diálogo, na medida em que está do lado de lá uma
parte que não dialoga”.“Isso não vai durar
sempre, e espero que seja possível noutra altura e noutras
circunstâncias estabelecer esse diálogo e retirar daí resultados para os
Açores positivos”, afirma.Neste momento,
estima-se que nos EUA habitem 1,5 milhões de pessoas de origem açoriana,
preconizando Mota Amaral a manutenção das relações bilaterais “no
pressuposto de que as circunstâncias vão mudar e não vai prevalecer esse
ambiente de loucura que se está a viver neste momento”.Mota
Amaral vê com naturalidade a utilização da Base das Lajes para apoiar o
conflito no Médio Oriente: isso mesmo "viram também as pessoas com a
obrigação de se pronunciarem sobre esta matéria”, que são “os
responsáveis regionais e nacionais atuais”.Em
Ponta Delgada, fica localizado o consulado mais antigo dos EUA, fundado
em 1795, além de ser nos Açores, na ilha Terceira, que fica localizada a
Base das Lajes, posto militar avançado dos EUA no Atlântico.Portugal e Estados Unidos possuem um acordo bilateral de defesa e cooperação, revisto pela última vez em 1995.