Mostra de cinema português Cine Altântico presta homenagem a Paulo Rocha nos Açores

Hoje 15:42 — Lusa/AO Online

“O Paulo Rocha foi, digamos, o fundador do novo cinema português nos anos 50, 60. É um realizador já falecido em 2012 e relativamente esquecido. Nós entendemos que era interessante fazer uma revisão dos seus principais filmes”, afirmou, em declarações à Lusa, o presidente do Cine-Clube da Ilha Terceira, Jorge Paulus Bruno.A mostra, promovida pelo cineclube, que tem como programador o crítico de cinema José Vieira Mendes, estende-se, este ano, por dois fins de semana.No primeiro fim de semana, de 16 a 18 de outubro, são exibidos na sala da Sociedade Filarmónica de Instrução e Recreio dos Artistas cinco filmes de Paulo Rocha e no segundo, de 23 a 25 de outubro, seis filmes que procuram refletir o novo cinema português, com o tema “feridas abertas e novas linguagens".O Cine-Clube da Ilha Terceira já tinha exibido noutra edição “Os Verdes Anos”, de Paulo Rocha, que segundo Jorge Bruno é o “filme fundacional da nova cinematografia portuguesa dos meados do século [XX], que descobre outras formas de filmar e outro país" e que "cria uma rutura com aquilo que era o cinema do regime do Estado Novo”.Agora o Cine Atlântico faz um balanço da obra do realizador português, numa parceira com a Cinemateca Portuguesa.“Assim entendemos que fazemos uma ponte para o fim de semana seguinte, que é justamente o cinema português contemporâneo. Porque do mesmo modo que o Paulo Rocha criou uma rutura com o cinema anterior, neste momento, em Portugal, ao nível dos filmes que estão a ser realizados, há, de certo modo, um olhar também de rutura com uma cinematografia que, nos últimos anos, estava a ser praticada”, avançou o presidente do cineclube.Este ano, ao contrário do que é habitual, não há uma linha comum na seleção de filmes contemporâneos exibidos na mostra, mas Jorge Bruno considera que estes realizadores “procuram rever e entender o país de outra forma e, eventualmente, através de outra linguagem cinematográfica”.“É um espelho do país atual que trata, de certo modo, a contemporaneidade e, em alguns casos, o próprio passado, mas revisto à luz do presente. Tudo isto creio que se articula muito com aquilo que o Paulo Rocha fez há cerca de 50, 60 anos, que foi justamente uma procura de transição entre a tradição e a modernidade”, salientou.Fundado na década de 1970, o cineclube foi reativado em 2013 e desde então tem vindo a fidelizar públicos, não só através desta mostra, mas do ciclo “O Cinema da Minha Vida”, que exibe filmes estrangeiros que ficam de fora das salas mais comerciais.“Ao longo destes anos, viemos cada vez mais, paulatinamente, a verificar nas estatísticas dos espetadores, um aumento. Não é um aumento exponencial, não são filmes de esgotar uma sala, mas, progressivamente, estamos a aumentar. E se nós compararmos a população da ilha com o número de pessoas que assistem às sessões, nós temos um rácio muito bom, se formos comparar com outras cidades do país”, referiu Jorge Bruno.Em média, o público que procura estes eventos está acima dos 30 anos, mas o cineclube não cobra bilhete aos menores de 18 anos e tem parcerias com bibliotecas e escolas para tentar incentivar os mais novos a descobrir o cinema de autor.O Cine Atlântico arranca, na sexta-feira, com "Mudar de Vida", o segundo filme de Paulo Rocha, lançado em 1966, que "acompanha o regresso de um soldado da guerra colonial à sua aldeia no Furadouro", retratando um "país suspenso entre tradição e modernidade", lê-se no material de promoção da mostra.No mesmo dia, é exibido "O Desejado ou as Montanhas da Lua", de 1987, “uma das obras mais enigmáticas e ambiciosas de Paulo Rocha", inspirada no clássico japonês “Genji Monogatari” e no mito português de D. Sebastião.No sábado, é apresentado "O Rio do Ouro", de 1998, "considerado por muitos a obra-prima de Paulo Rocha", seguido de "A Raiz do Coração", de 2000, "um dos filmes mais livres e provocadores” do realizador.O fim de semana dedicado a Paulo Rocha termina com "Vanitas ou o Outro Mundo", de 2004, descrito como "o filme mais radical e crepuscular” do realizador.No dia 23, a mostra é retomada com "Playback", de Sérgio Graciano, que acompanha o percurso de vida de Carlos Paião, "um dos compositores mais populares da música portuguesa".No dia seguinte, é exibido "O Barqueiro", de Simão Cayatte, "um drama social noturno sobre a dificuldade de voltar a casa quando o maior obstáculo talvez seja aquilo que se traz dentro", seguindo-se "Justa", de Teresa Villaverde, um drama que aborda "a dificuldade de regressar à vida quando a própria ideia de normalidade perdeu o sentido", no contexto dos incêndios que afetaram o país em 2017.No mesmo dia é apresentado "Entroncamento", de Pedro Cabeleira, que "dá rosto a uma periferia raramente representada no cinema português", numa linguagem “entre o drama, o filme criminal e uma observação quase documental".A mostra termina no dia 25 com a exibição de "18 Buracos para o Paraíso", de João Nuno Pinto, "um drama sobre a fragilidade da terra, das relações humanas e de um mundo que insiste em aproximar-se do abismo como se ainda tivesse tempo", e de "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho, "uma obra sobre o encontro entre a Europa e África, mas também sobre tudo aquilo que esse encontro continua a impedir, deformar ou tornar possível".