Morreu ex-futebolista e treinador Manuel Fernandes
28 de jun. de 2024, 00:31
— Lusa/AO online
Manuel Fernandes, nascido em Sarilhos
Pequenos, na Moita, em 05 de junho de 1951, notabilizou-se como jogador,
sobretudo, ao serviço do Sporting, que representou entre 1975/76 e
1986/87, tendo passado ainda por Sarilhense, CUF e Vitória de Setúbal.Pela
seleção principal, o jogador que conseguiu um ‘póquer’ nos 7-1 do
Sporting ao Benfica, em 1986/87, disputou 30 jogos, com sete golos. Eterno "capitão" do Sporting
O internacional português Manuel Fernandes, histórico goleador e
‘eterno capitão’ do Sporting, ficará sempre na memória pelos quatro
golos da vitória por 7-1 sobre o Benfica, em 1986.Natural
de Sarilhos Pequenos, no concelho da Moita, distrito de Setúbal, Manuel
José Tavares Fernandes construiu uma vida inteira ligada ao futebol,
enquanto jogador, treinador, dirigente e, até, comentador televisivo.Começou
para o futebol aos 16 anos e cumpriu o sonho da mãe - precocemente
desaparecida, quando o filho tinha 10 anos -, que lhe anteviu o percurso
clubístico enquanto jogador.Como extremo
direito, deu os primeiros pontapés no clube da terra, o 1º de Maio
Sarilhense, e logo deu nas vistas, saltando para o Grupo Desportivo da
CUF. Aí, tornou-se profissional aos 18 anos.Seis
épocas e 43 golos depois, esteve com um pé e meio no FC Porto. Nesse
ano de 1975, contudo, acabou por mudar-se para o clube do coração, o
Sporting, “ajudado” pelos ventos de mudança soprados pelo 25 de Abril:
em 72 os ‘leões’ quiseram levá-lo, mas o dono da CUF impediu a saída.Mais
tarde, em 1980, também teve hipótese de se mudar para o Benfica. Um
dirigente dos ‘encarnados’ acenou-lhe com um chegue cujo valor era
superior a tudo quanto ganhou em 12 anos no Sporting.“Tremi,
mas não vacilei”, afirmou, em 2011, em entrevista à Lusa. “Eu adorava
tanto o Sporting que para mim era impensável jogar num rival que, como
sportinguista, nunca gostei. Hoje, se calhar, tenho uma maneira
diferente de ver as coisas. Mas na altura senti que nunca podia
representar o Benfica”, acrescentou.Nessa
mesma conversa, lembrou o quão gostava do Sporting: quando jogava pelo
clube do Barreiro, ao intervalo ia perguntar ao roupeiro qual era o
resultado dos ‘leões’. Era “fanático”, a ponto de “chorar quando o clube
perdia”, recordou à Lusa o ‘eterno capitão’.Quando
chegou a Alvalade, em 1975, foi logo adaptado a avançado por Juca e, a
partir de 1978/79, o técnico jugoslavo Milorad Pavic entregou-lhe a
braçadeira, projetando-se como ‘eterno capitão’.Lá
na frente, formou uma dupla temível com Rui Jordão (1952-2019) e
cumpriu 12 temporadas que configuram uma página de sucesso na história
do clube, recordada até hoje.Manuel
Fernandes nunca falhou nenhum dérbi para o campeonato nessas 12 épocas,
participando em 24, além de outros que jogou para a Supertaça, a Taça de
Portugal e a Taça de Honra. O único em que não participou foi um
clássico para a Taça, em que o Sporting venceu o Benfica por 3-0, com
três golos do brasileiro Manoel.Com a
camisola verde e branca, conquistou dois títulos nacionais (1979/80 e
1981/82), apontou 255 golos no campeonato e 342 em todas as competições
oficiais, figurando como o segundo melhor marcador da história do
Sporting, apenas atrás de Fernando Peyroteu (540 golos em 332 jogos
oficiais).A isto soma ainda o recorde de
presenças em jogos da divisão principal do futebol português, facto que
motivou uma homenagem da Liga a 25 de abril de 2023, em Sarilhos
Grandes. “Ser o jogador com mais jogos é
um grande orgulho. Já ganhei campeonatos, bolas de prata, mas este
troféu é diferente. Sonhava ser jogador de futebol e tenho 486 jogos na I
divisão”, disse, na cerimónia, Manuel Fernandes.O
antigo avançado foi aí considerado “uma referência viva” pelo
presidente da Liga, Pedro Proença, “não só por aquilo que foi como
jogador mas fundamentalmente por um conjunto de valores que sempre
defendeu”, sublinhou. No total, Manuel
Fernandes somou 601 jogos, 318 golos e cinco títulos: dois campeonatos
nacionais, duas Taças de Portugal e uma Supertaça, todos com o Sporting.Somou
também um prémio de melhor marcador do campeonato, com 30 golos de
‘leão’ ao peito em 1985/86, contabilizando ainda 30 internacionalizações
e sete golos pela seleção ‘AA’ de Portugal. Mas
o feito pelo qual é ainda hoje mais citado é o ‘poker’ com que
contribuiu para o 7-1 no dérbi entre Sporting e Benfica, à 14.ª jornada
da época de 1986/87, em 14 de dezembro de 1986.“As
pessoas podem dizer que o Benfica foi campeão, mas já o foi muitas
vezes. Campeonatos há muitos, mas um resultado destes há só um, e por
isso é que passados 30 anos os sportinguistas ainda hoje me felicitam no
dia 14 de dezembro”, disse Manuel Fernandes em entrevista à agência
Lusa, em 2016, por ocasião do 30.º aniversário da goleada que perdura na
memória dos adeptos do Sporting.Apesar do
feito, saiu no final dessa época, dispensado pelo inglês Keith
Burkinshaw. Mudou-se para o Vitória de Setúbal orientado por outro
britânico, Malcolm Allison, o treinador que mais apreciou ao longo da
carreira.Manuel Fernandes, que gostava de
ter jogado com Maradona e Cruyff, retirou-se dos relvados em 1988, com
mágoa: não se despedir na equipa de sempre, o Sporting. Outro desgosto:
ter ficado fora da convocatória para o Mundial de 1986, no México, sem
uma justificação. Ele que tinha acabado de ser o melhor marcador do
campeonato, com os tais 30 golos na época de 1985/86.Em
Setúbal, iniciou o percurso como treinador no final da época de
1987/88. Orientou depois o Estrela da Amadora, Ovarense, Campomaiorense,
Tirsense, Santa Clara, Sporting, Penafiel, ASA (Angola) e União de
Leiria, encerrando a carreira como treinador em 2011, novamente à frente
do Vitória de Setúbal. No banco, foi
campeão pelo Santa Clara, na II divisão B (1997/98) e na II Liga
(2000/01), saindo à 18.ª jornada para orientar o Sporting. Também pelos
açorianos, subiu à I divisão em 1998/99, feito que já tinha conseguido
no Campomaiorense (1994/95) e que repetiu no Penafiel (2003/2004) e na
União de Leiria (2008/2009).Em Leiria
pegou na equipa no último lugar, à oitava jornada, terminando na segunda
posição da II Liga. Mas, numa entrevista ao jornal Expresso, em 2020,
confessou que foi no Campomaiorense e no Santa Clara que mais gostou de
treinar, nas épocas das subidas.Pelo meio,
regressou ao Sporting como treinador principal, na época de 2000/01. Em
seis meses, conquistou a Supertaça e ficou em terceiro lugar. Mas,
“depois não quiseram que eu ficasse mais”, desabafou também ao Expresso.Voltou
ao clube entre 2011 e 2013, como diretor do Sporting B, e foi também
coordenador de recrutamento dos ‘leões’, entre 2015 e 2019, antes de se
dedicar em exclusivo ao comentário de futebol na televisão.À Lusa, resumiu a carreira num balanço repartido por duas entrevistas.“Não
fico na história do Sporting por causa dos 7-1, mas pelo que fiz ao
longo de 12 anos no clube, embora este jogo com o Benfica tenha sido
algo inesquecível, marcante para a vida, mesmo para os benfiquistas”,
realçou, em 2016.Antes, em 2011, admitiu
que, mesmo não tendo conquistado títulos internacionais pelos ‘leões’,
se sentia protagonista de algo único.“Para
um miúdo que veio de Sarilhos Pequenos para jogar nem que fosse uma vez
no Sporting, ter feito 600 jogos no velhinho estádio de Alvalade, onde
sou o jogador com mais golos marcados, é uma coisa inédita”, rematou.