Monjardino diz que “uma nação livre não deve ter medo”
Hoje 18:57
— Paula Gouveia
“Heróis do mar. É assim que começa o nosso hino nacional”, lembrou Miguel Monjardino, presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. E foi às “heroínas e heróis do mar” que o açoriano deixou a mensagem de que “o amanhã não é longe demais”, sublinhando que “uma nação livre não deve ter medo. (...) Deve é estar prevenida e preparada”. E, segundo o especialista em Geopolítica e Geoestratégia, não faltam razões para o fazer. “Nos próximos anos, teremos de navegar em ondas semelhantes às da Nazaré”, sustentou.“Até 2030, viveremos tempos de urgência. A desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos. Temos aliados na Europa, Américas, Ásia e na Oceânia com quem partilhamos valores, interesses e memórias históricas? Claro que sim. Mas, tal como Camões e os surfistas na Nazaré, dependeremos primeiro de nós. Teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários”, defendeu Miguel Monjardino. O professor universitário lembrou que “os menos fortes podem não ter muitas cartas. Mas os mais fortes, também não têm todas as cartas. E, algumas vezes, esquecem-se disto”.“Coragem é liberdade. Liberdade é coragem”, realçou, considerando que é preciso fazer a defesa do multilateralismo e de uma nova coligação de potências médias. Segundo o académico, “um longo ciclo histórico iniciado em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim nos últimos anos”. “A Grande Rutura está em curso e estamos presentes na criação de um novo ciclo histórico”. “Um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado”, sublinhou Monjardino.Deste modo, o professor universitário deixa o desafio: “aceitemos que não nos compete dominar ou compreender todas as marés do mundo até 2030. Devemos é ter a capacidade de compreender atempadamente como é que as sociedades, os ecossistemas científicos e tecnológicos, as linhas de comunicação marítimas, terrestres e aeroespaciais, os centros de recursos, o sistema financeiro internacional e o poder militar estão a mudar e que impacto tudo isto terá em nós”.“Só assim estaremos em condições de contribuir para a reinvenção da NATO e do seu pilar europeu. Só assim participaremos ativamente na União Europeia. E, finalmente, só assim poderemos fortalecer e diversificar as nossas relações pelo mundo fora”, considerou.Para Miguel Monjardino, “este será um século marítimo” e por isso “devemos olhar para a terra novamente a partir do mar”, sendo certo que “os Açores e a Madeira continuarão a fazer a ligação entre a Europa, as Américas e África. Precisamos de ter as pessoas e os recursos para garantir a soberania nacional no território português no Atlântico”.O presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas aproveitou a ocasião para deixar uma mensagem aos açorianos: “Estes não podem, não devem, ser tempos de divisões egoístas e míopes entre ilhas”. “Muito foi feito nos Açores e na Madeira desde 1976 para o seu desenvolvimento” e “a governação de ilhas com dimensões geográficas e demografias muito diferentes será sempre uma tarefa exigente quer ao nível político quer nos deveres da administração pública para com os seus cidadãos. Mas, nestas ilhas tão devotas à irmandade do Espírito Santo, nenhuma pode ficar esquecida”, sustentou.n