Modelo inovador de saúde no Seixal permite acudir a utentes sem médico de família
6 de fev. de 2023, 09:59
— Lusa/AO Online
A
marcação de consultas é feita na véspera, mas a unidade, que tem um grande número de utentes, precisa com urgência de um equipamento
telefónico que permita agilizar o processo porque há quem se queixe de
grandes dificuldades num contacto que nasceu para ser mais fácil.Entre
as 09:00 e as 13:30, as consultas podem ser marcadas através do
963739496, um número que é desligado diariamente após o preenchimento de
todas as vagas do dia.Um ano depois de
ter sido criada, a Via Verde Seixal faz 150 consultas diárias, das 08:00
às 20:00, servindo 45 mil utentes sem médico de família atribuído. Ao
mesmo tempo, foi também criada a Via Verde Almada, uma "gémea" de menor
dimensão que atende 17 mil utentes.Ambas pertencem ao Agrupamento de Centros de Saúde Almada-Seixal.Alexandra
Fernandes, que ao longo de 25 anos foi médica de família na unidade de
saúde familiar de Fernão Ferro, é a coordenadora da Via Verde Seixal,
localizada em Santa Marta do Pinhal (freguesia de Corroios), e uma das
criadoras do projeto inovador que recebeu uma menção honrosa no Prémio
Boas Práticas em Saúde e foi recentemente apontado pelo ministro da
Saúde, Manuel Pizarro, como modelo a replicar.É
com emoção e uma energia contagiante que fala de um projeto que
considera poder ser uma solução imediata e temporária para a enorme
carência de médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar no
concelho do Seixal, no distrito de Setúbal, tal como em todo o país.No
Seixal, explicou em declarações à Lusa, estes utentes eram
anteriormente acompanhados nas Unidades de Cuidados de Saúde Primários,
mas recebendo cuidados que considera de insuficiente qualidade,
prestados por médicos não especializados e contratados através de
empresas de 'outsourcing'. Uma situação que classifica de "intolerável" e
que a levou a propor o novo modelo.Foi o
inconformismo dos profissionais de saúde com anos de experiência em
unidades de saúde familiar que fez nascer o modelo e no qual participam
médicos e enfermeiros de outras unidades.“Com
o entusiasmo de mais três ou quatro profissionais de unidades de saúde
familiar do concelho, nomeadamente enfermeiras e uma colega minha também
assistente graduada sénior, propusemos ao nosso ACES a criação de
unidades fora do habitual às quais chamámos projetos Via Verde saúde”,
explicou.No modelo habitual de
organização, a cada equipa de família (médico e enfermeiro) é atribuída
uma lista de 1.650 a 2.000 utentes, mas neste modelo existe uma equipa
fixa que serve a totalidade dos utentes.A
intenção foi permitir prestar os melhores cuidados de saúde possíveis
com os recursos humanos e materiais disponíveis, num contexto de
carência de médicos de família. Já
estiveram em pavilhões pré-fabricados cedidos pela autarquia, mas hoje
prestam cuidados num edifício novo, com 16 gabinetes onde são atendidos
utentes de 90 nacionalidades. Com
Alexandra Fernandes está também desde o início a enfermeira especialista
Olívia Matos, uma profissional que fez também a sua carreira na Unidade
de Saúde Familiar de Fernão Ferro."A
grande motivação foi pensar que poderíamos contribuir para uma resposta e
em termos de enfermagem este é um projeto muito interessante, um
desafio, porque todos os dias chegam novos utentes e uma população muito
jovem", disse.Mas nem tudo são rosas,
conta a coordenadora Alexandra Fernandes, e também o diretor do
ACES-Almada Seixal, Alexandre Tomás, que acolheu o projeto desde início,
assim como a Comissão de Utentes do Seixal, que enaltece a ideia, mas
chama a atenção para a necessidade de maior investimento para suprir as
fragilidades, quer técnicas quer humanas.José
Lourenço, da Comissão de Utentes do Seixal, reconhece a mais-valia do
serviço, mas chama a atenção para a necessidade de fixar os
profissionais, até porque os médicos que aqui prestam serviço auferem
menos do que os que estão numa unidade de saúde familiar.Uma
reivindicação também sustentada por Alexandre Tomás, o diretor
executivo do ACES, que se mostra muito feliz por ter profissionais que
se disponibilizaram para dar esta resposta, mas que lamenta não poder
dar incentivos para os fixar.“Entendemos
que esta resposta deve ter um novo enquadramento por parte do Ministério
[da Saúde]. Ainda não é uma unidade funcional, temos de garantir a
fixação dos profissionais nesta área, caso contrário saem”, disse.Ainda
assim, apesar de ser menos aliciante do ponto de vista económico, há
médicos que optam por esta unidade, ainda que tenham tido desafios para
outras.Foi o caso de João Capelinha,
médico recém-especializado em Medicina Geral e Familiar, que, apesar de
ter tido um convite para outra unidade, optou por ficar na Via Verde
Seixal porque se identificou de imediato com o projeto."O
projeto aqui foi muito aliciante", explicou, adiantando que o facto de
receber pessoas que até então não tinham acompanhamento médico adequado
torna a sua função mais estimulante.Admite
que em termos remuneratórios os projetos das Unidades de Saúde Familiar
são mais aliciantes, mas ainda assim a escolha recaiu nesta unidade."Sinto que estou a fazer algo mesmo importante", disse.Já
para João Batalheiro, médico especialista de Medicina Geral e Familiar e
recentemente reformado, o projeto foi ao encontro do que queria fazer
após a aposentação: cuidar dos doentes sem médico.Um
dia recebeu um telefonema de Alexandra Fernandes a perguntar se queria
entrar num projeto que pretendia dar alguma dignidade às pessoas e
evitar que fizessem filas às quatro da manhã para ter consultas."Alinhei.
Ficou combinado assim. Este projeto é uma resposta à falha
governamental", disse, adiantando que agora num formato diferente se
libertou das burocracias e faz o que realmente gosta: "Cuidar dos
doentes".