MNE diz que Portugal manterá apoio militar mas 'stocks' "não são ilimitados"
Ucrânia/1 ano
24 de fev. de 2023, 09:29
— Henrique Botequilha /Lusa/AO Online
Em
entrevista à Lusa a propósito do primeiro aniversário da invasão da
Rússia na Ucrânia, que hoje se assinala, João Gomes Cravinho disse que o
apoio de Portugal à Ucrânia “está sempre a ser calibrado” e sublinhou
“uma grande generosidade” que é reconhecida por parte de Kiev. “Se
olharmos para aquilo que Portugal tem dado em termos militares, em
termos do nosso PIB em termos ‘per capita’, vemos que Portugal está
entre os mais generosos. A nossa dimensão, naturalmente, não permite que
sejamos os primeiros doadores, mas à nossa escala estamos a ser muito
generosos”, sustentou.Essa generosidade
vai continuar enquanto for necessária, prosseguiu, mas advertiu: “É
evidente que não podemos todos os dias inventar novos meios para dar, os
nossos próprios ‘stocks’ não são ilimitados, mas acredito que
continuaremos a responder”.O chefe da
diplomacia portuguesa apontou que apesar de ser "evidente que, à medida
que as capacidades bilaterais se vão diminuindo, como é normal” - porque
já foi fornecido muito equipamento – “no âmbito multilateral, Portugal
continuará a fazer parte daqueles que consideram fundamental apoiar a
Ucrânia”.O ministro dos Negócios
Estrangeiros referiu-se ao processo de aquisição conjunta por parte da
União Europeia de equipamento militar, e de munições em particular, do
qual ”Portugal faz parte” e, nesse sentido, à medida que a situação se
vai alterando, novas formas de responder às necessidades da Ucrânia vão
sendo identificadas.Além das viaturas
blindadas M113 e geradores elétricos, e de militares portugueses
estacionados num contingente da NATO na Roménia e de caças F16 presentes
na Lituânia, Portugal vai enviar três tanques pesados Leopard 2, de
fabrico alemão, para as forças de Kiev.O
fornecimento destes carros de combate, tal como os norte-americanos
Abrams, mereceu fortes resistências das autoridades de Berlim e de
Washington, que acabaram no fim do mês passado por ceder à forte pressão
da Ucrânia e de vários países aliados.Abstendo-se
de comentar as motivações das resistências alemã e norte-americana,
João Gomes Cravinho declarou, a esse respeito, que, do lado de Portugal
“houve sempre abertura para considerar as várias propostas” dos
ucranianos, mas numa perspetiva de conjunto. “Com
a escala que temos, as capacidades que temos, não podemos avançar
sozinhos. Até porque, por exemplo, o envio de três Leopards para a
Ucrânia não faria sentido se não fosse num quadro mais alargado, porque
com três carros de combate não se faz nada”, considerou. Além
dos tanques pesados, as forças de Kiev pedem mais equipamento militar
para fazer face à intensificação da ofensiva russa, como caças e mísseis
de longo alcance. Mísseis de longo
alcance é algo que Portugal não tem, referiu Cravinho, que era ministro
da Defesa à data do início da invasão. Já em relação aos caças F-16 a
convicção de Lisboa é que “não há justificação militar neste momento que
imponha esse tipo de doação” para a Ucrânia. “Nós
temos F-16, é um número limitado, portanto, não sei se alguma vez
haverá essa possibilidade, mas a nossa postura tem que sempre ser
enquadrada e não há neste momento a convicção conjunta por parte dos
países da União Europeia e por parte dos países da NATO de que seja a
melhor forma de apoiar a Ucrânia”, afirmou. O
ministro português concorda, porém, com as autoridades de Kiev que o
equipamento militar seja fornecido depressa, dada a iminência de uma
potencial nova ofensiva russa na primavera, e, “neste momento, é
fundamental que os carros de combate cheguem o mais rapidamente possível
ao terreno”, tal como reforço de munições.Esta
pressa é também justificada porque a Rússia está a reforçar com meios
humanos, a sua frente militar, apontou o governante, numa doutrina
militar que “não atribui importância à vida humana”, e o que se vê no
terreno “é uma grande mobilização de homens para o ataque contra
território ucraniano, com baixas absolutamente incríveis e absolutamente
inaceitáveis para qualquer abordagem civilizada”, que o Presidente
russo, Vladimir Putin, impõe para mais um metro do território e “isso
não é sustentável a prazo”. Do lado
ucraniano, a defesa tem de ser feita “com meios, com equipamento
militar, com equipamento tecnologicamente mais avançado, porque a
Ucrânia simplesmente não tem os números em termos de homens que a Rússia
tem”, assinalou o governante, manifestando confiança de que as forças
ucranianas ultrapassarão esta fase. “Depois
haverá outras necessidades que se irão impor. O essencial é que do
nosso lado haja sempre disponibilidade para apoiar a Ucrânia naquilo que
precisa, e no âmbito militar, as nossas forças armadas, as forças
armadas de outros países, os ministérios da Defesa respetivos estão
sempre muito atentos e a calibrar o seu apoio à Ucrânia de acordo com as
necessidades”, comentou.No plano
político, João Gomes Cravinho considerou que “já ficou muito claro” que
do lado da União Europeia e dos Estados Unidos há uma mensagem central
que o Presidente norte-americao, Joe Biden, levou na segunda-feira ao
homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky: “Não vamos deixar cair Kiev”. Apesar
de prever que o conflito se prolongue por bastante tempo, o chefe da
diplomacia portuguesa não tem dúvidas de que “o Presidente Putin vai
perder esta guerra”, porque “há uma determinação muito grande, há uma
capacidade de resistência ucraniana, que só se compreende quando nos
lembramos que estão a defender a sua terra e alguma incompetência e
falta de motivação por parte de Rússia, que estão a invadir uma terra
alheia e com recurso a recrutas que mal sabem o que lá estão a fazer”.O
líder russo “infelizmente não deu até agora nenhum sinal de ter
compreendido isso, que é algo que boa parte do mundo já compreendeu,
incluindo alguns dos seus aliados”, defendeu o ministro, salientando que
“é extremamente importante que a mensagem seja reiterada até ao dia em
que o Presidente Putin comece a fazer planos para sair da Ucrânia, onde
nunca devia ter entrado”. Quanto à
possibilidade de o desfecho do conflito se encontrar em Moscovo, através
de uma mudança na liderança do Kremlin, João Gomes Cravinho sustentou
que Putin “fez algo de extremamente arriscado e pouco pensado, e nessas
circunstâncias, pode ser que o seu próprio poder esteja em risco”.No
entanto, destacou também, que “isto não é uma guerra contra a Rússia,
não é uma guerra contra o Presidente Putin”, mas uma guerra “de defesa
pela integridade territorial da Ucrânia” e aquilo que forem as
consequências para o Presidente russo “é um assunto perfeitamente
secundário”.