Missão de simulação de ambiente lunar coloca ilha Terceira no mapa científico internacional
17 de nov. de 2023, 09:29
— Carina Barcelos/Lusa/AO Online
“A Gruta
do Natal oferece, em termos de segurança, logística, etc., todas as
condições para finalmente termos um local análogo (de simulação da
superfície da Lua) para oferecer aos verdadeiros astronautas. Abrimos as
portas à comunidade nacional e internacional para vir cá treinar”,
afirmou a comandante da missão e investigadora do Instituto de
Engenharia de Sistemas e Computadores Tecnologia e Ciência - INESC TEC,
Ana Pires, em declarações à Lusa e à Antena 1.Ana
Pires falava na gruta onde sete "astronautas" nacionais e estrangeiros
vão ficar isolados, entre 22 e 28 de novembro, simular uma missão na Lua
e realizar 14 experiências científicas.A
investigadora já participou numa missão análoga no deserto, mas pela
primeira vez participa numa subterrânea, que disse ser “muito mais
dura”.Para Ana Pires, a missão na Gruta do
Natal será apenas “o primeiro passo para coisas fantásticas que podem
acontecer” e para estabelecer pontes com investigadores da Agência
Espacial Europeia (ESA) e da Administração Nacional da Aeronáutica e
Espaço dos Estados Unidos (NASA).“Finalmente
temos um local onde investigadores, futuros astronautas, e jovens se
poderão preparar para a exploração humana (da Lua) e para a exploração
robótica”, frisou.A ideia de criar uma
missão de simulação numa gruta surgiu há quatro anos, mas desde que foi
anunciada, na Cimeira dos Exploradores em Angra do Heroísmo, na ilha
Terceira, a equipa teve quatro meses para a montar.Segundo
Yvette Gonzalez, diretora executiva da missão e investigadora
Universidade de Plymouth, nos Estados Unidos, há muitas missões análogas
no mundo, mas esta é realizada numa estrutura “muito invulgar,
diferente de qualquer outro lugar”, que vai funcionar como um verdadeiro
“laboratório natural”.“Viver numa gruta é
algo de novo. Poucos grupos o fizeram. Pela primeira vez vamos dar
dados a outros cientistas de como é viver aqui. Por outro lado, esta
gruta vai disponibilizar novos dados para a astrobiologia, a geologia”,
explicou.Durante o período em que vão
estar isolados na gruta, os "astronautas" vão fazer videochamadas com
alunos do primeiro ciclo à universidade, de Portugal, Estados Unidos e
Indonésia.A missão de controlo no exterior
será liderada pela associação “Os Montanheiros”, que fez a exploração
espeleológica da gruta e gere as visitas ao local.Paulo
Barcelos, presidente da associação, está convicto de que a missão vai
colocar os Açores no mapa mundial, não só porque é a primeira do género
feita em Portugal, mas porque é também a primeira a utilizar cavidades
vulcânicas, num ambiente semelhante ao que se espera encontrar na Lua ou
em Marte.“Este é o melhor cenário para
testar muitas das experiências que podem-se revelar importantes, porque a
ideia das missões análogas, ao fim e ao cabo, é encontrar soluções para
potenciais problemas que possam vir a ser encontrados no espaço ou em
satélites como a Lua, de uma forma muito mais barata e rápida”, apontou.A
Gruta do Natal foi escolhida não só pelas acessibilidades, para
instalar a missão e para um eventual resgate, mas também porque, apesar
de manter interesse científico, já é visitada por turistas.“Interessava
propor uma gruta que não fosse intocada, uma gruta que já estivesse
perturbada”, explicou o espeleólogo, alegando que, caso contrário, a
missão podia “causar danos às comunidades naturais que pudessem existir”
no local.Segundo Paulo Barcelos, há ainda
muito por descobrir nas grutas dos Açores, no que diz respeito, por
exemplo, a bactérias ou algas terrestres.“As
grutas são ambientes vivos, têm um nível de biodiversidade que tem
vindo a ser estudado e cada vez se descobre coisas mais interessantes. A
fauna endémica dos Açores está quase toda dentro das grutas”,
sublinhou.