Ministro das Finanças recusa que orçamento seja contracionista
OE2023
27 de out. de 2022, 10:54
— Lusa/AO Online
Na
fase de perguntas a Fernando Medina, que abriu hoje o segundo dia de
debate na generalidade do OE2023, o deputado Hugo Carneiro pediu ao
ministro para “confessar os pecados orçamentais” do documento, repetindo
a acusação de que o executivo irá cortar mil milhões de euros na
atualização futura de pensões.“Isto não é
cumprir a palavra honrada. Até as vacas perderam as asas”, ironizou Hugo
Carneiro, numa referência a uma célebre frase de António Costa de 2016,
segundo a qual “até as vacas podiam voar”.O
‘vice’ da bancada social-democrata estimou que, no próximo ano, quatro
milhões de portugueses vão perder rendimentos, contando 2,9 milhões de
pensionistas, 700 mil funcionários públicos e mais de 300 mil
beneficiários de apoios sociais.“Reconhece,
como dizem a UTAO ou o Conselho de Finanças Públicas, que o Orçamento
do Estado é contracionista e acelerou a consolidação orçamental à custa
do aumento de impostos e que implica, como disse primeiro-ministro, uma
perda brutal do poder de compra dos portugueses?”, questionou o deputado
do PSD.Na resposta, o ministro das
Finanças acusou Hugo Carneiro de “repetir as falácias” do PSD sobre a
política de rendimentos e de “apoucar a concertação social”.Fernando
Medina voltou a negar qualquer corte nas pensões e a repetir que os
pensionistas terão aumentos em 2022 e em todos os anos seguintes até
final da legislatura “porque o PS não faz cortes em pensões em
pagamento”.“Não é um orçamento
contracionista, porque é preciso retirar e perceber que, no ano de 2022,
tivemos um conjunto significativo de despesas extraordinárias que não
estão consideradas nas contas do saldo estrutural, mas que mudam a
natureza do nosso exercício orçamental”, justificou.O ministro das Finanças assegurou que o orçamento do Governo “é o mais neutro possível”.“Queremos
ganhar a margem de manobra necessária para podermos agir caso a
situação económica assim o exija (…) Não queremos ser pró-cíclicos com a
economia a abrandar, queremos ter margem para apoiar as economias e
famílias”, disse, respondendo à pergunta colocada pelo deputado
socialista Filipe Neto Brandão.o deputado
do PS tinha manifestado “apoio inequívoco” da sua bancada à trajetória
do Governo de “retirar Portugal do grupo dos países mais endividados”.Pelo
BE, a deputada Mariana Mortágua desafiou Medina a clarificar a que se
destina uma verba incluída no Orçamento, “ativo para impostos
diferidos”, questionando se será para o Novo Banco, e a explicar a
medida ainda não aprovada pelo Governo para taxar os lucros inesperados.“Diga
ao país o que vai fazer, vai tributar os lucros de 2021 ou só de 2022,
que parcela vai tributar, que setores, que empresas?”, questionou.Medina
assegurou - “pela enésima vez”, segundo o próprio – que “não está
orçamentada nenhuma transferência para o Novo Banco” e salientou que os
lucros das grandes empresas já são taxados a 31,5%, “uma das mais altas
taxas, a que acresce a contribuição especial para o setor energético”.“Iremos
acrescentar uma tributação adicional sobre os lucros que venham a ser
gerados em 2022”, disse, apenas, sobre a nova taxa, depois de na
quarta-feira o primeiro-ministro ter anunciado que o Governo irá
entregar no parlamento, mal termine o processo orçamental, uma proposta
de lei para a tributação de lucros inesperados que também irá incluir o
setor da distribuição.O deputado do PCP
Bruno Dias acusou o Governo de apenas se preocupar com o défice quando
se trata de aumentar salários ou valorizar o SNS e a escola pública, sem
explicar “as mãos largas com o dinheiro dos contribuintes para o poder
económico”.“O alargamento do prazo de
prejuízos reportes fiscais é o maior ‘jackpot’ de muitos anos para os
grupos económicos, nem o Governo de Passos Coelho foi tão longe, os
neoliberais estão consigo nessa medida. Isto não lhe diz nada, sr.
ministro?”, questionou Bruno Dias.Na
resposta, o ministro das Finanças admitiu as “diferenças de fundo” entre
Governo e PCP sobre a importância de manter o défice e a dívida
contidos.“A proposta é muito clara no
apoio fiscal aos rendimentos das famílias e tem, assumidamente e por
opção política, apoios aos investimentos das nossas empresas, das
pequenas, médias e grandes empresas. Precisamos desse investimento”,
defendeu Medina.Gabriel Mithá Ribeiro,
pelo Chega, questionou Medina sobre o que classificou de “intolerável
desperdício de recursos financeiros” por parte do Ministério da
Educação, enquanto Joana Cordeiro, da IL, pediu que se acabe com “o
vício das injeções extraordinárias de capital” no Serviço Nacional de
Saúde.“Queremos dar todas as condições à
nova direção executiva do SNS”, assegurou o ministro das Finanças,
apontando para um crescimento do orçamento da saúde em mais de 1.100
milhões de euros.