Ministra da Justiça “desabafa” no PE e pede que não se eternize polémica sobre procurador
26 de jan. de 2021, 18:33
— Lusa/AO Online
Numa audição conjunta com as
comissões de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos e de
Controlo Orçamental do Parlamento Europeu, para fazer um ponto da
situação do estabelecimento da nova Procuradoria Europeia, e na qual
participou a Procuradora-Geral, Laura Codruta Kovesi, a questão da
nomeação do procurador José Guerra foi suscitada por vários deputados,
entre os quais Paulo Rangel e José Manuel Fernandes, do PSD.Lembrando
que a questão “já foi discutida no Parlamento Europeu, em plenário”,
com uma intervenção da secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana
Paula Zacarias, em nome do Conselho da UE – a que Portugal preside no
corrente semestre -, a ministra disse todavia entender “que subsistam
nas mentes de alguns dos deputados dúvidas legítimas a respeito da
isenção e da transparência desse processo”, pelo que, assim que foi
convidada a participar na sessão, se disponibilizou “imediatamente” a
“prestar todos os esclarecimentos necessários”.“Permitam-me
um primeiro desabafo: É que este processo tem para mim duas ironias,
traz duas ironias. A primeira é que quando eu iniciei funções no
Governo, no final de 2015, o processo de cooperação reforçada, o
processo de adoção do regulamento, estava bloqueado por parte de
Portugal. E de facto foi o Governo de que eu fiz parte que desbloqueou
esse regulamento e que nos permitiu entrar na primeira fase da
cooperação reforçada”, começou por referir. A
segunda ironia, prosseguiu, é que “a prática em Portugal é que quando
se deve indicar pessoas para lugares internacionais não se faz
concursos”. “Eu decidi neste caso propor
ao Governo, e o Governo propôs ao parlamento, uma lei nesse sentido,
sendo certo que, embora a lei não estivesse ainda aprovada, nós seguimos
o rito que a lei previa, ou seja, definimos que seriam os Conselhos
Superiores, do Ministério Público e da Magistratura – ambos órgãos
independentes do poder político – a definir os melhores candidatos”,
explicou.Van Dunem voltou a explicar o
sucedido, enfatizando que "os ‘famosos’ lapsos” não constavam do
currículo do magistrado José Guerra, mas sim “de uma nota que o Governo
enviou a dar nota da sua preferência por um candidato diferente daquele
que tinha sido colocado em primeiro lugar do ‘ranking’ pelo comité de
seleção”. Lembrando que o regulamento da
Procuradoria “é claro” ao indicar que o ‘ranking’ estabelecido pelo
comité de seleção independente europeu “não é vinculativo”, a ministra
reiterou que Portugal fez “uma escolha diferente” pois “havia uma
diferença abissal” relativamente à seleção feita pelo Conselho Superior
da Magistratura português, que ordenou a candidata que o painel
considerou em primeiro em terceiro lugar, a 12 pontos de diferença do
primeiro candidato”.Manifestando-se
“disponível para prestar mais esclarecimentos”, se tal for considerado
necessário, Francisca Van Dunem lamentou o tempo que a polémica já leva.“Já
vão mais de três meses. Estamos desde outubro nesta situação. A
Procuradoria Europeia precisa de estabilidade, precisa de paz para
trabalhar. Se aquilo que queremos é pô-la operacional, precisamos de
resolver estas questões com grande rapidez, e não eternizar um problema
que pode perfeitamente ser clarificado e esclarecido ao Parlamento”,
concluiu.Depois da intervenção da
ministra, a deputada holandesa Sophia in’t Veld, do grupo Renovar a
Europa (Liberais), manifestou-se insatisfeita com os esclarecimentos
prestados, reclamando antes que o Conselho partilhe toda a documentação
com o parlamento, e ameaçou com uma ação na justiça se tal não suceder.
Também o líder da delegação do PSD, Paulo Rangel, considerou que
permanecem perguntas sem resposta.A
Procuradora-Geral Europeia escusou-se a comentar a polémica em torno da
nomeação do procurador português, por ser um processo alheio à
Procuradoria, mas vincou que o procedimento está muito bem regulado nos
regulamentos da instituição.Laura Codruta
Kovesi também foi confrontada com a designação de José Guerra,
designadamente pelo eurodeputado José Manuel Fernandes (PSD), que
questionou a Procuradora sobre como tenciona “remediar este imbróglio
causado pelo Governo português”.Na
resposta, a Procuradora-Geral, que participou na sessão por
videoconferência, começou desde logo por sublinhar que a Procuradoria
Europeia “não esteve envolvida no procedimento de seleção nem na
designação dos procuradores europeus, todos eles designados pelo
Conselho, em julho de 2020”. “Porque não
estivemos envolvidos neste procedimento, não posso comentar” o caso
específico da nomeação do procurador português, disse.No
entanto, abordando o processo em termos gerais e concretamente “o que
pode ser feito no futuro”, Laura Codruta Kovesi argumentou que “o
procedimento para a nomeação dos procuradores europeus está muito bem
regulado nos regulamentos” da Procuradoria (EPPO, na sigla em inglês) “Portanto,
se alguém quiser mudar o procedimento, penso que o primeiro passo a dar
será rever o regulamento do EPPO nesta questão”, declarou.