Ministra da Coesão nega qualquer intervenção na aprovação de candidaturas a fundos comunitários
3 de out. de 2022, 15:32
— Lusa/AO Online
Num
artigo de opinião no jornal Público, que intitulou “A mulher de César é
séria”, Ana Abrunhosa salientou que algumas notícias sobre os apoios
aprovados para a empresa da qual o marido é sócio “deixaram
propositadamente no ar a insinuação de que esses apoios só foram
possíveis” por ser membro do Governo e assegurou que não tem qualquer
interferência na gestão das empresas do marido, que já era um
“empresário de longa data, filho e neto de empresários”, antes de ter
sido convidada para funções governativas.“Para
que fique absolutamente claro: nem eu, nem nenhum dos meus secretários
de Estado, alguma vez tivemos intervenção, direta ou indireta, no
processo de aprovação de candidaturas, nem na atribuição de qualquer
apoio financeiro”, afirmou a ministra.“Quero
deixar claro que no desempenho das minhas funções agi sempre com
legalidade, cumpri sempre com o meu dever de imparcialidade e exerci
sempre as funções que me foram confiadas com total transparência”,
reiterou, salientando ainda que não acompanha os negócios do marido, com
quem casou em regime de separação de bens.A
ministra destacou que as empresas participadas pelo marido constam da
sua Declaração Única de Rendimentos, Património, Interesses,
Incompatibilidades e Impedimentos, entregue junto do Tribunal
Constitucional, e que, quando teve conhecimento deste caso, “por uma
questão de transparência, e preventivamente”, pediu primeiro um parecer à
Direção de Serviços Jurídicos, Auditoria e Inspeção da Presidência do
Conselho de Ministros e, posteriormente, ao Conselho Consultivo da
Procuradoria-Geral da República.Ambos os
pareceres foram no sentido de que não existir algum impedimento ao
cônjuge da ministra da Coesão Territorial de apresentar uma candidatura a
fundos comunitários e receber verbas aprovadas por não ser, “em
princípio, alcançada pelo conceito de contratação pública”.“Nada
disto fiz porque tivesse dúvidas, repito, mas para que no escrutínio a
que estamos sujeitos como governantes – e bem –, não restassem quaisquer
dúvidas”, sublinhou.Face “à falta de
argumentos legais”, a ministra considerou que “nos últimos dias corre na
praça pública um julgamento”, que “encontra refúgio na moralidade, na
ética e em ataques de caráter”.“Um
julgamento moral que revela total desconhecimento sobre estes rigorosos
mecanismos dos fundos europeus e que já se decidiu pela culpabilidade,
independentemente das explicações e do entendimento da lei”, salientou.A
ministra considerou ainda que quem questiona “a lisura do processo”,
alegando com o facto de as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento
Regional (CCDR), que gerem os fundos comunitários, serem tuteladas pelo
seu Ministério, desconhece os procedimentos.Nomeadamente
que estas entidades têm presidentes eleitos pelos autarcas de cada
região e têm total autonomia nas decisões que tomam relativamente aos
apoios que atribuem, sem depender, “como agora se fez crer em vários
órgãos de comunicação, de qualquer análise prévia ou homologação da
tutela”, escreveu.Ana Abrunhosa destacou
também que o projeto aprovado à empresa participada pelo seu marido -
“com um apoio de 133 mil euros (e não as ‘centenas de milhares de euros’
referidos em algumas notícias)” - inseria-se num aviso de investigação e
desenvolvimento, pelo que quem analisou o mérito da candidatura foi a
Agência Nacional de Inovação, uma entidade que não é tutelada pelo
Ministério da Coesão, “mas sim, em partes iguais, pelo Ministério da
Economia e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior”, e que “recorre
sempre a um painel de peritos externos e independentes, com
reconhecimento internacional”.A ministra
considerou que “poder candidatar-se a apoios europeus é um direito que
todos os cidadãos e empresas têm”, pelo que o seu marido, “cidadão e
empresário, jamais poderá ser privilegiado por ser casado” com uma
ministra, “mas também não deveria ser prejudicado por essa mesma
realidade”.“Se não for assim, e se de
facto se considerar justo que familiares de governantes fiquem inibidos
de direitos, como o de apresentarem candidaturas a apoios europeus que
estão disponíveis a todos os portugueses e em cujos processos de decisão
os governantes não têm qualquer participação, então é necessário mudar a
lei. Tenhamos presente que, se isso acontecer, estaremos a ampliar
ainda mais um quadro de supressão de direitos e a alimentar um clima de
desconfiança e permanente suspeita sobre a classe política, tornando
ainda mais difícil trazer pessoas competentes para o serviço público”,
alertou.Questionada hoje pelos
jornalistas, à margem da apresentação do Estudo de Viabilidade, Técnica e
Ambiental da linha ferroviária do Douro, que decorreu em Freixo de
Espada à Cinta, no distrito de Bragança, Ana Abrunhosa remeteu para este
artigo no Público.“Tudo o que eu tinha a dizer, já escrevi”, disse a ministra da Coesão.“Tudo
o que tinha a dizer já disse e o senhor primeiro-ministro já respondeu
na Assembleia da República”, acrescentou, quando questionada sobre se se
sente confortável em continuar no Governo.