Milhares concentram-se em Paris após tribunal levantar proibição de protestos
Hoje 16:23
— Lusa/AO Online
Os organizadores do protesto em Paris indicaram que um tribunal administrativo da capital anulou uma proibição imposta pela polícia, em resposta a um recurso por eles apresentado, mas a decisão do tribunal de Paris não foi imediatamente divulgada.O comando da polícia de Paris tinha justificado a proibição invocando o risco de violência nas ruas, dado que, no passado fim de semana, grupos de jovens mascarados entraram em confronto com as forças de segurança, destruíram e saquearam lojas e incendiaram veículos.O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, anunciou que 217 pessoas foram encarceradas, de entre as 2.700 detidas pela polícia após a onda de violência e pilhagens do fim de semana em França.“Trata-se, de facto, de uma resposta extremamente firme, sem precedentes", considerou Darmanin, acrescentando que metade dos detidos não tinha antecedentes criminais.Os manifestantes, muitos dos quais jovens, reuniram-se hoje pacificamente na região sudeste de Paris e entoaram palavras de ordem, sob uma forte presença policial.“Não precisamos de gás lacrimogéneo para que o nosso futuro pareça sombrio”, lia-se numa faixa exibida pelos manifestantes.Os organizadores assinaram um documento junto da polícia comprometendo-se a manter o protesto num local fixo, devido ao risco de violência.Novas proibições são esperadas nos próximos dias. O Presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que tais medidas visam proteger os centros das cidades, os estabelecimentos comerciais e os edifícios públicos.O direito de manifestação em França está consagrado na Constituição; por isso, a proibição de ações de protesto agendadas para hoje em Paris, Lyon, Lille e Grenoble foi vista por alguns como uma violação de um direito civil dos cidadãos franceses.Grupos de alunos do ensino secundário e universitário declararam que vão continuar a mobilizar-se, apesar de ter começado esta semana a pausa letiva de outono.Macron explicou que a estratégia adotada para os próximos dias consiste em proibir manifestações convocadas por “indivíduos ou grupos sem autoridade legítima”, numa declaração feita após uma reunião especial de segurança no Palácio do Eliseu.“Quando os sindicatos solicitarem a realização de manifestações, as autoridades locais analisarão os pedidos de acordo com a lei, mas proporão percursos alternativos” para proteger os centros urbanos, o comércio e os edifícios públicos, afirmou.“As regras são simples e, a meu ver, assentam no bom senso. A recomendação geral é que não se realizem manifestações nos próximos dias”, disse, acrescentando que “para aqueles que ainda assim desejem protestar, no caso de serem sindicatos, as autoridades vão propor rotas alternativas”. Macron atribuiu a violência do fim de semana a “ações lideradas por grupos radicais de esquerda radical que visavam derrubar a República”, além de criminosos que apareceram para saquear.A agitação em Paris e noutras cidades francesas provocou uma resposta enérgica do Governo em matéria de segurança: foi decretado o recolher obrigatório noturno em algumas zonas da capital francesa, bem como noutras cidades onde a ordem foi restabelecida.Os protestos de hoje estão a ser encarados como um prelúdio da grande manifestação agendada para o próximo sábado, na qual se espera a participação de ativistas do movimento dos “coletes amarelos” — cuja contestação aos preços dos combustíveis abalou França em 2018 e 2019 — e do sindicato CGT.Alguns desses protestos, incluindo marchas em Lyon, também serão proibidos, indicaram as autoridades locais.Outras cidades francesas foram duramente atingidas pela agitação; por exemplo, em Limoges, um incêndio quase destruiu a câmara municipal, um edifício do século XIX.O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que se reuniu na quarta-feira com representantes sindicais, afirmou que foi planeada uma operação de segurança “maciça” para sábado, de forma a impedir que se repita a violência protagonizada por pequenos grupos de manifestantes, episódios que revelaram falhas nas medidas de segurança.Os representantes sindicais disseram que a reunião com Lecornu não resultou em propostas concretas e estão agora a concentrar esforços para um novo dia de mobilização, marcado para 05 de novembro, apelando aos trabalhadores dos setores público e privado para aderirem ao movimento.As manifestações começaram no mês passado, numa escola secundária em Créteil, no sudeste de Paris, devido à falta de funcionários. A partir daí, greves, bloqueios e protestos alastraram a outros subúrbios de Paris e, mais tarde, a todo o país, chegando mesmo às cidades mais pequenas.Os alunos do ensino secundário expressaram preocupações com o subfinanciamento das escolas, as instalações precárias, a escassez de pessoal não-docente e de professores, especialmente em bairros de baixos rendimentos.Alguns apelaram também para uma reforma do sistema de admissão universitária, por muitos considerado complexo e injusto.Perante a incapacidade do Governo de responder às reivindicações dos estudantes, as manifestações e os bloqueios escolares transformaram-se em protestos mais vastos contra o aumento do custo de vida — tudo isto a poucos meses das eleições presidenciais da primavera do próximo ano, que decidirão quem sucederá a Macron.