Metade do planeta passa a ter regulamento com entrada em vigor do Tratado do Alto Mar
Hoje 15:32
— Lusa/AO Online
Debatido durante quase 20
anos, o tratado foi formalmente adotado em junho de 2023 e aberto à
assinatura dos Estados a 20 de setembro do mesmo ao, tendo hoje já sido
ratificado por mais de 80 países. O documento entra em vigor 120 dias
após a 60.ª ratificação, o que acontece a 17 de janeiro.O
Acordo de Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional (BBNJ, na sigla
original) é mais conhecido pelo Tratado do Alto Mar porque diz respeito à
parte do oceano que não pertence à jurisdição de qualquer país. Se o
oceano representa mais de 70% da superfície do planeta, o alto mar é
mais de metade dessa superfície, o que representa quase metade do
planeta.É uma parte do oceano sobre a qual
pouco se sabe “mas com um grande potencial”, disse à Lusa a bióloga Ana
Colaço, especialista em mar profundo e investigadora do Instituto
Okeanos, da Universidade dos Açores.Nas
águas mais superficiais do alto mar há grandes migrações, de atuns,
baleias, tartarugas, tubarões e aves marinhas e Ana Colaço lembra que se
trata de “um oceano sem fronteiras”, onde o tratado irá ajudar a uma
melhor conservação e preservação, destacando que o documento tem em
conta outros acordos já assinados, incluindo a convenção sobre
biodiversidade que prevê a gestão e conservação de 30% do oceano global.Essa
conservação não é só nas águas administradas pelos países, é também no
alto mar. “Temos de pensar como é que vamos geri-lo, de forma a
preservar todos os seus recursos. E são bastantes”, disse a
investigadora à Lusa.O BBNJ tem como um
dos grandes objetivos proteger a biodiversidade marinha em águas
internacionais e permitir a criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMP)
no alto mar, além de estabelecer regras para uma partilha justa de
benefícios.Numa declaração à Lusa, a
ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, destacou
precisamente que o Tratado representa “um avanço na governação global
dos oceanos e na proteção da biodiversidade marinha”.“Passamos
a dispor de novos instrumentos jurídicos ao nível das áreas marinhas
protegidas, do acesso aos recursos genéticos ou da avaliação de impactes
ambientais”, justificou a ministra.Maria
da Graça Carvalho apontou também a importância de Portugal no tratado ao
estar “na linha da frente dos países que o aprovaram, refletindo o
empenho do Governo em agir em prol da proteção dos oceanos e de uma
economia azul verdadeiramente sustentável”.Tiago
Pitta e Cunha, especialista em assuntos do mar e administrador da
Fundação Oceano Azul, também em declarações à Lusa enfatizou o papel de
Portugal na adoção de um tratado que estava há quase 20 anos em
“negociações mornas”.O grande impulso,
disse, foram as Convenções das Nações Unidas para o Oceano (UNOC),
“sendo que a que foi determinante para a adoção do Tratado do Alto Mar
foi a de Lisboa, a conferência número dois [sobre o oceano]” da ONU que
se realizou em Lisboa em 2022, tendo a do ano passado em França sido
determinante para aumentar as ratificações do documento.Pitta
e Cunha destacou a importância do tratado mas também “o enorme sentido
de responsabilidade de proteção do oceano, de governação do planeta, que
é novo neste tratado”, que diz respeito a uma área em que poucos países
têm grandes interesses diretos, porque não lhes aumenta as perspetivas
económicas. “É por isso que eu digo que este tratado estabelece um vínculo direto, pela primeira vez, entre o oceano e o planeta”, afirmou.Ana
Colaço também salientou que até agora faltava um acordo que permitisse a
gestão do "oceano de ninguém", que promovesse a conservação, o uso
sustentável e a partilha de informação. “Este
tratado é extremamente importante porque começou a criar uma ordem onde
não havia ordem, para a preservação, a conservação e uso sustentável do
oceano”, resumiu.