“Mercado da saudade está a desaparecer”
5 de set. de 2023, 06:41
— Lusa/AO Online
“Temos
que ir conquistar o mercado do reencontro, do reencontro dos cheiros,
dos sabores, daquilo que as avós deixaram”, afirmou Francisco Viveiros,
na primeira sessão da nova temporada de “As Nossas Vozes”, um projeto
sobre a diáspora lusa nos Estados Unidos.“Não
vejo a Associação de Turismo dos Açores a apostar nas migrações na
América do Norte”, disse Viveiros, referindo que subsiste a ideia errada
de que o mercado da saudade é suficiente. “O mercado da saudade está a
desaparecer”, frisou. Viveiros considerou
que é preciso atrair as gerações mais jovens, que se afastaram dos polos
de emigração nos Estados Unidos e não têm tanto interesse nas tradições
religiosas das associações luso-americanas. “É
esta gente que temos que chamar”, disse o responsável. “Prefiro falar
neles em termos de marcar a identidade açoriana, fazer com que tenham
orgulho dos Açores e do seu país”, acrescentou. Isso faz-se através do turismo e dos produtos açorianos, defendeu Viveiros.“Não
há um marketing para fazer perceber o que é a marca Açores, que valor
tem aquele selo”, considerou o presidente da Casa dos Açores da Nova
Inglaterra.“Isto faria com que realmente
estas novas gerações se chegassem mais e fossem à procura daquele
produto, daquele cheiro, daquele sabor de que talvez ainda se lembram da
avó mas que perderam”, acrescentou. Por
outro lado, considerou Viveiros, será importante apostar na promoção da
cultura contemporânea, já que os jovens das novas gerações que visitam
os Açores vêm “encantados” com a região.“Não podemos continuar a pensar que é só folclore e marchas”, afirmou o responsável.“É
importantíssimo, mas temos que mostrar o lado mais moderno e fazer com
que as novas gerações sintam esta necessidade de se identificarem e
forçarem a sua identidade açoriana”, acrescentou. É
nesse âmbito que funciona o festival de artes Fabric, organizado pela
Casa dos Açores da Nova Inglaterra e cuja quarta edição arranca a 05 de
outubro, com uma duração de 10 dias.Este
ano, o festival vai expandir-se de Fall River para New Bedford, também
no estado de Massachusetts, e Providence, no estado de Rhode Island. “É
uma maneira de chegar às novas gerações. Não é um festival de massas
mas faz projeção da nossa área, das nossas atividades nos Açores”,
indicou Viveiros.“A edição deste ano está
muito bem delineada e vai atingir vários níveis de público”, continuou o
responsável, referindo que uma das principais atrações será a atuação
da fadista portuguesa Gisela João. “Há
instalações, há espetáculos, quer de açorianos que vêm, quer de
descendentes que estão espalhados pelos Estados Unidos”, descreveu o
presidente da Casa dos Açores da Nova Inglaterra.“Há todo um leque de atividades que abrange várias áreas e fazem com que muitos jovens venham visitar Fall River”, acrescentou. Este
dinamismo poderia ter maior apoio das instituições portuguesas,
considerou Viveiros, lamentando a pouca atenção que o governo de
Portugal tem dado à diáspora e às entidades que mantêm viva a cultura
portuguesa nos Estados Unidos.Ainda assim, referiu que o apoio do governo regional dos Açores é muito importante e bastante sentido pelas associações. “O governo regional entende que as Casas dos Açores são os embaixadores do governo na diáspora”, sublinhou Viveiros. “É
nosso papel também mostrar não o Portugal do antigamente mas mais os
Açores de hoje”, referiu o responsável. “Uma região moderna, um país
moderno que é desconhecido de muita gente, principalmente das novas
gerações”, acrescentou. Francisco
Viveiros, natural de Ponta Delgada e radicado nos Estados Unidos desde
2006, foi o primeiro convidado da nova série do projeto “As Nossas
Vozes”, organizado pelo Conselho de Liderança Luso-americano e pelo
Instituto Português Além-Fronteiras.Esta
série de seminários 'online' é totalmente falada em língua portuguesa e
debruça-se sobre as vivências lusas nos Estados Unidos.