Memória da tragédia à sombra das torres que não existem
11 de Setembro
9 de set. de 2021, 16:00
— Pedro Sousa Pereira, Agência Lusa
O
horror e o desespero juntos transformaram, em poucas horas, a baixa de
Manhattan num dos maiores cemitérios do mundo e sem dúvida num dos
locais mais tristes da história contemporânea onde impressionavam a
formação das filas silenciosas de voluntários cobertos de pó e o lento
movimento das equipas de salvamento debaixo de montanhas de aço, vidro,
cimento e fumo negro. Estava calor e o ar estava sempre abafado. Na
altura, como jornalista ao serviço da SIC, acompanhei com os repórteres
de imagem, Vítor Caldas e Manuel Ferreira e o editor Manuel Dias da
Silva, durante quase um mês, os acontecimentos em Nova Iorque tendo
viajado numa das últimas ligações aéreas sobre o Atlântico Norte antes
do encerramento do espaço aéreo. Pouco
mais de 48 horas após os ataques, Andrew Haymes do Quartel 21
(Ladder 21) do Departamento de Bombeiros de Nova Iorque (NYFD) olhava
para o chão e não conseguia explicar a sucessão de tragédias. "Este
quartel de bombeiros entrou em ação após o embate do primeiro avião por
volta das 09:00 de terça-feira (11 de setembro de 2001). Saíram daqui
para o World Trade Center três carros de combate a incêndios com 18
bombeiros e só regressaram seis homens com vida. Espero que os
encontremos com vida. A resposta da cidade é notável mas tudo isto é uma
tragédia", dizia Haymes.Nenhum
dos 12 bombeiros do Quartel 21 desaparecidos nos escombros regressou
com vida do local para onde tinham sido chamados antes da derrocada das
torres. Apesar
da total destruição do complexo World Trade Center na baixa de
Manhattan o desespero pela recuperação dos sobreviventes era tanto que
chegavam diariamente bombeiros de outros Estados para ajudarem "no que
fosse preciso". "Estive
lá oito horas, mas - atenção - porque qualquer pessoa que lá continua
está em perigo constante por causa do vidro e das placas de aço", dizia
Jimmy Logan, dos bombeiros de New Haven, Connecticut, agarrado a uma
bandeira dos Estados Unidos do tempo da Segunda Guerra Mundial. No dia
11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por
terroristas da Al Qaeda, sendo que dois aparelhos colidiram de forma
intencional contra as Torres Gémeas do World Trade Center, Nova Iorque,
que ruíram duas horas após o impacto.O
terceiro avião de passageiros colidiu no edifício do Pentágono, a sede
do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, condado de Arlington,
Virgínia, nos arredores de Washington D.C..O
quarto avião caiu num campo no Estado da Pensilvânia, depois de alguns
passageiros e tripulantes terem tentado retomar o controlo do aparelho.No
total morreram mais de três mil pessoas no ataque da Al Qaeda contra
território norte-americano, entre os quais cerca de 300 bombeiros da
cidade de Nova Iorque.Nesses
dias, cada minuto que passava era determinante e para os voluntários os
piores momentos aconteciam sempre que eram encontrados os cadáveres das
vítimas."Tiramos
dois bombeiros para fora e que tinham morrido. Colocámos os corpos nos
sacos. Estavam num buraco. Mandámos os corpos para a casa mortuária para
serem identificados. Encontramos também restos mortais que pareciam ser
de uma senhora", explicava Jimmy Paulo, luso descendente de Newark e,
na altura, jovem estudante de Medicina.O
luso descendente foi um dos primeiros voluntários a apresentar-se na
Zona de Impacto numa ambulância dos bombeiros de Newark na noite de 11
de setembro.Voltou
ao local nas noites seguintes e passados quatro dias confessava que
tinha dificuldade em descansar e que mesmo durante o dia só pensava em
regressar depois do pôr do sol. "Só
penso ir para lá durante a noite porque acho que quando estou lá vou
conseguir recuperar alguém. Sei que não vou ser capaz de recuperar
ninguém", lamentava o então estudante de Medicina.A Bolsa de Nova Iorque manteve-se encerrada durante uma semana e os acessos à cidade eram muito condicionados.Na
noite do dia 18 de setembro, George W. Bush, 43.º presidente dos
Estados Unidos dirige-se ao país, depois da aprovação de uma resolução
no Congresso, e fala da decisão de combater a Al-Qaida e os talibãs no
Afeganistão.Em
Times Square, Manhattan, o discurso transmitido pela televisão é
aplaudido pela população e por muitos bombeiros e elementos das forças
de segurança que continuavam a remover os escombros da Zona de Impacto."Eu
já estive nas Forças Armadas e se tiver de ir outra vez volto. Temos de
pagar um preço pela liberdade. Morreram muitas pessoas nos edifícios de
Nova Iorque e no Pentágono. Se tiverem de morrer pessoas para
protegerem a liberdade então vou. Se tiver de ser", disse o bombeiro
John Hagen encostado a um centro de recrutamento do Exército em Times
Square.As
manifestações de solidariedade para com as vítimas sucediam-se quase
todas as noites, sobretudo em Newark, Elisabeth, New Jersey ou
Long Island, locais onde viviam a maior parte das vítimas dos atentados
contra Nova Iorque. "Tenho
pena das gerações mais novas. Tenho pena dos nossos filhos. Muitos de
nós ainda temos filhos jovens e isto é muito duro", disse-me John
Jordan, veterano da Marinha dos Estados Unidos no Pacífico durante
a Segundo Guerra Mundial (1939-1945), adivinhando o conflito que se
aproximava.Quase
um mês depois dos atentados, e pouco antes do início da
operação "Enduring Freedom" iniciada a 07 de outubro contra a
Al-Qaida de Osama bin Laden e o regime dos talibãs no Afeganistão, a
remoção dos escombros continuava e apesar dos esforços a vida tardava
em regressar à normalidade, sobretudo naquela zona da cidade onde a
maior parte dos edifícios tinham sido evacuados.Mesmo
assim, o reverendo de uma igreja presbiteriana decide batizar um bebé
junto à Zona de Impacto afirmando que se tratava de "um ponto de partida
para o futuro"."Vamos-te
batizar Ethan Phillip Hall aqui, como sinal para uma nova vida e como
sinal de esperança porque nenhum ato de violência é mais forte do que a
esperança", disse o reverendo William Grant durante a cerimónia
religiosa.A
criança foi batizada enquanto helicópteros da polícia sobrevoavam a
Zona de Impacto e ao som de veículos blindados do Exército se
movimentavam nas ruas da baixa da cidade de Nova Iorque. Nesse dia o tempo continuava quente e abafado, em Nova Iorque.Em
abril de 2003, dois anos depois dos atentados contra Nova Iorque, no
centro da cidade de Bagdade vi o sargento Edward Chin, integrado nos
Marines norte-americanos, a tapar a icónica estátua do Presidente do
Iraque Saddam Hussein com uma bandeira dos Estados Unidos.Segundo o militar, a bandeira tinha sido "removida dos 'escombros' do Pentágono no dia 11 de setembro de 2001".Nesse dia o tempo também estava abafado, em Bagdade.