Médicos não estão sensibilizados para prescrever canábis medicinal

Hoje 09:43 — Nuno Martins Neves/Paula Gouveia

Portugal é o segundo maior exportador de canábis medicinal, mas ainda há uma grande falta de médicos prescritores deste remédio. A conclusão é de Graça Castanho, organizadora do CannAzores, conferência internacional dedicada à canábis medicinal e ao cânhamo industrial, cuja sexta edição decorreu entre os dias 16 e 17 de outubro, em São Miguel.“Portugal é o segundo maior exportador de canábis medicinal do mundo, depois do Canadá. (...) No ano passado, Portugal exportou 80 toneladas de canábis medicinal. Temos feito coisas realmente fantásticas, como a legalização do uso medicinal em 2018 e a colocação dos medicamentos nas farmácias. O que nós não temos são médicos prescritores. E nós não temos uma população sensibilizada para os benefícios da canábis”, afirmou Graça Castanho.Para a organizadora, isto deve-se à ausência de formação sobre o sistema endocanabinoide nas faculdades de medicina e à falta de conhecimento por parte dos médicos, devendo apostar-se numa formação. “Ninguém vai prescrever sem ter tido formação. Mas há quem forme, inclusivamente cursos gratuitos na Universidade de São Paulo, que já formou mais de 20 mil alunos on-line”.No entanto, Graça Castanho não deixa de apontar o dedo ao desinteresse que sente dos profissionais de saúde neste campo, pois ao fim de seis edições da conferência internacional que organiza, “contam-se pelos dedos as pessoas da área da saúde que vêm aos nossos evento e nós fazemos isto sempre com médicos. Tivemos aqui sumidades autênticas, como a maior sumidade de investigação na América Latina toda, que é o professor José Alexandre Crippa, que vem da Universidade de São Paulo. E eu vi aqui dois médicos: isto é impensável! Eu não vi aqui enfermeiros, eu não vi aqui psicólogos, eu não vi aqui psiquiatras”.No entanto, o uso do canábis não se circunscreve ao medicinal, tendo a CannAzores também dado a conhecer algumas das aplicações que cânhamo industrial já têm, atualmente,  desde a construção civil ao têxtil.Por exemplo, um dos usos prende-se com o revestimento para habitações: “Nós estamos a falar do material para além de ser sustentável, biodegradável, que se desfaz, que se integra no meio ambiente, é  um material respirável, com particularidades acústicas, térmicas, que não cria fungos, é antibacteriano”. No caso do têxtil, o preço ainda é um problema, devido à falta de escala, reconhece Graça Castanho. No entanto, é uma opção ecológica, tratando-se de uma fibra ecológica. “O que nós precisamos é de materiais biológicos, sustentáveis, ecológicos, que se degradem e que não danifique o meio ambiente, pelo contrário, às vezes até o enriquece”, finaliza.