“Médicos da terra” tentam diagnosticar sintomas do sistema vulcânico
Sismo São Jorge
28 de mar. de 2022, 12:50
— Lusa/AO Online
“Encaro
sempre o vulcão como se fosse o nosso paciente. Nós tentamos ser os
médicos da terra”, disse à agência Lusa a coordenadora das operações do
Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA) na
ilha de São Jorge, onde se regista uma crise com milhares sismos de
baixa magnitude que não provocaram danos.Uma
equipa do CIVISA iniciou, na manhã desta segunda-feira, mais um dia de medições de
gases junto ao campo de futebol na vila das Velas e na zona dos Rosais,
um trabalho que está a decorrer no terreno desde 20 de março, no dia
seguinte ao sismo mais energético desta crise, que ocorreu às 18h41
de 19 de março, com uma magnitude de 3,3 na escala de
Richter.No
dia que estava a fazer as escalas das equipas que vão fazer as medições
nos próximos dias, Fátima Viveiros comparou este trabalho à função dos
médicos que tentam diagnosticar sintomas nos seus pacientes.“Nós
podemos ter um cancro e algumas das nossas análises estarem boas,
depende do nosso organismo dar sinal para umas coisas e não dar sinal
para outras. O sistema vulcânico pode estar a dar alguns sinais e outros
não”, disse a cientista.Perante
isso, é necessário, assim como fazem os médicos, “repetir as análises e
ir acompanhando para ir vendo se há pequenas alterações”, referiu
Fátima Viveiros, ao explicar que é esse trabalho de definir um perfil
diário das emissões que está a ser desenvolvido na componente dos gases
vulcânicos.Em
áreas vulcânicas, o dióxido de carbono e o radão, um gás radioativo,
são libertados através dos solos, um fenómeno que não é visível a olho
nu.“Temos
de ir com equipamento que mede, neste caso, a quantidade de dióxido de
carbono que é libertada do solo para a atmosfera, assim como a
concentração de gases mesmo dentro dos solos, nas suas primeiras
camadas”, explicou Fátima Viveiros.Além
do dióxido de carbono e do sulfureto de hidrogénio, vai passar a ser
medido o gás radão, através de um equipamento que chega hoje a São
Jorge, ilha que não tem, ao contrário de outras do arquipélago açoriano,
fumarolas e nascentes termais, que produzem emissões visíveis
associadas aos sistemas vulcânicos.Uma
dificuldade que é, no entanto, ultrapassada pelo trabalho feito em anos
anteriores pelos cientistas e que está, nesta crise, a mostrar-se
bastante útil.“Nós
temos um mapa destas emissões de 2003 e 2004. Portanto, há um mapa
antigo, que permite comparar os resultados que estamos a obter com os
resultados da campanha de 2003 e 2004, o que é excelente, porque permite
ter referências de dados quando o sistema estava em repouso”, adiantou
Fátima Viveiros.Além
disso, segundo a coordenadora das operações do CIVISA, os dados dos
dias iniciais da crise sismovulcânica estão a ser utilizadas para
repetir um “perfil estabelecido de 18 pontos” que estão a ser medidos ao
longo da faixa de cerca de 20 quilómetros dos epicentros dos sismos
para perceber se “há um aumento de gás em profundidade associado a um
aumento de magma”.“Até
ao momento não tivemos alterações significativas na quantidade de gases
que medimos”, assegurou Fátima Viveiros, ao manifestar precaução, uma
vez que se está perante um “sistema vulcânico enorme”, que não permite
“medir cada centímetro quadrado” dessa faixa de 20 quilómetros.A crise sismovulcânica está a ocorrer na zona central da ilha de São Jorge, ao longo de uma entre Velas e Fajã do Ouvidor.A
ilha de São Jorge contabilizou mais de 14 mil sismos, dos quais mais de
200 sentidos pela população, desde o início da crise sísmica, a 19 de
março, segundo os dados oficiais mais recentes.