Maus-tratos nas prisões e restrições a protestos pacíficos persistem em Portugal
Hoje 12:23
— Lusa/AO Online
A AI
destaca na análise sobre Portugal que “o Ministério Público instaurou
processos por alegados homicídios ilegais de pessoas vítimas de
discriminação racial por parte da polícia”, que a violência de género se
manteve elevada e que, “segundo relatos, os crimes de ódio registaram
um aumento”.O último ponto referido é
sobre “transferências irresponsáveis de armas”, considerando a Amnistia
que a escala na Base Aérea das Lajes, nos Açores, de três caças F-35
vendidos a Israel pelos Estados Unidos, autorizada e reconhecida pelo
Governo, “facilitou a transferência de armas para Israel, violando as
obrigações de Portugal ao abrigo do Tratado sobre o Comércio de Armas e
do direito internacional humanitário”.No
estudo “A situação dos Direitos Humanos no Mundo 2025-26”, tal como no
anterior, a AI destaca a questão dos maus-tratos nas prisões, referindo
um relatório do Provedor de Justiça de julho de 2025 com “provas de
maus-tratos em três das dez prisões visitadas durante 2024”.Indica
também que o Ministério Público investigou “alegações de que, em maio,
duas pessoas detidas nos Açores tinham sido vítimas de maus-tratos”,
lembrando que, “em outubro, o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura
manifestou preocupação com as falhas sistémicas persistentes nas
investigações criminais de alegações de tortura”.Além
de apontar a sobrerrepresentação de cidadãos estrangeiros em casos de
maus-tratos, a organização de defesa dos direitos humanos volta a
referir o caso de Odair Moniz - morto a tiro por um polícia, em outubro
de 2024, depois de ter tentado fugir e resistido a detenção na sequência
de uma infração rodoviária -, dando conta do início do julgamento do
agente e da abertura de uma segunda investigação contra dois outros
agentes por falso testemunho.Em relação ao
uso excessivo da força é referido ainda o caso da acusação de dois
agentes da polícia, em julho de 2025, por “rapto agravado” e “homicídio
agravado”, na sequência de um ataque em março de 2024 contra dois
imigrantes marroquinos em Olhão, na região do Algarve.“Ambas
as vítimas estavam algemadas no momento da agressão. Uma delas morreu
em consequência dos ferimentos. Os agentes da polícia foram suspensos
enquanto aguardavam julgamento”, acrescenta a Amnistia.O
relatório assinala, por outro lado, que o Governo “não tomou medidas
para rever a legislação, com décadas de existência, que regula a
liberdade de reunião pacífica, a qual violava as normas internacionais”,
indicando que “ativistas relataram terem sido acusados por não
cumprirem os requisitos de notificação obrigatória antes da realização
de manifestações” e que um deles foi condenado a pagar uma multa de 300
euros por “desobediência qualificada” dado não ter notificado as
autoridades sobre um protesto pacífico.Quanto
à questão da interrupção voluntária da gravidez (IVG), a AI refere que o
acesso “continuou a ser desigual em todo o país”, com um “grande número
de profissionais de saúde” a recusar-se a realizá-la por motivos de
consciência, sendo as restrições maiores nos Açores e no Alentejo.Nota
também que o Grupo de Peritos do Conselho da Europa para a Ação contra a
Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica (GREVIO)
identificou em maio “uma série de obstáculos à proteção das vítimas”,
entre os quais as “sanções brandas” e as “ordens de afastamento
ineficazes”.O relatório anual da AI indica
ainda que, entre 2019 e 2024, “apenas 19 das 1.020 investigações sobre
alegados crimes de ódio” levaram a acusações, segundo dados da
Procuradoria-Geral da República. E refere
que, “em junho, a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância
(ECRI) manifestou preocupação com as lacunas no quadro jurídico de
combate aos crimes de ódio e com a insuficiência de processos judiciais,
o que conduzia a uma perceção de impunidade”.O
despejo à força de famílias na sequência de demolições e os receios de
que medidas do governo para combater a escassez de habitação a preços
acessíveis pudessem provocar aumentos de renda são igualmente referidos
na análise sobre a situação dos direitos humanos em Portugal.A
nível mundial, avaliando o relatório a situação dos direitos humanos em
144 países, a Amnistia Internacional considera que 2025 “foi marcado
por ataques predatórios ao multilateralismo, ao direito internacional e à
sociedade civil” e que “a alternativa que se apresenta é uma ordem
mundial racista, patriarcal, desigual e anti-direitos”, referindo o
trabalho de “manifestantes, ativistas e organismos globais” para
contrariar tal movimento.