Maus tratos na infância são muitas vezes invisíveis e todos são precisos no combate
21 de abr. de 2023, 12:08
— Lusa/AO Online
Abril
é o mês da prevenção contra os maus tratos na infância, desde que, em
1989, uma mulher norte-americana amarrou uma fita azul na antena do
carro, em homenagem ao neto, vítima mortal de maus tratos, tendo
escolhido aquela cor para simbolizar a cor das lesões.Para
a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção
das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), “nunca é demais chamar a atenção que
proteger as crianças compete a todos”.“Todos
nós temos uma responsabilidade imensa, enquanto adultos, de estarmos
atentos às crianças que estão à nossa volta e de podermos protegê-las
devidamente. Parece que já passaram muitos anos e que já não é preciso,
mas infelizmente ainda é preciso termos estes momentos de chamada de
atenção para a prevenção de maus tratos na infância”, defendeu Rosária
Farmhouse.Segundo a responsável, trata-se de uma realidade “muitas vezes invisível” e sobre a qual é difícil perceber os sinais.“Passaram
muitos anos, mas a verdade é que em muitos países, apesar de termos
este mês internacional de prevenção dos maus tratos na infância,
continuamos a ter crianças a serem vítimas de maus-tratos de forma
invisível”, apontou.De acordo com Rosária
Farmhouse, todos os anos as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens
(CPCJ) acompanham cerca de 70 mil crianças e recebem mais de 40 mil
comunicações de perigo, em que as tipologias mais frequentes têm a ver
com negligência.Explicou que tanto pode
estar em causa situações de omissão de cuidados, indiferença em relação
ao crescimento da criança, ausência de condições mínimas para um
crescimento integral e seguro, como casos de violência doméstica, ou
abandono escolar precoce.Referiu, por
outro lado, que há também comportamentos de perigo na infância e
juventude, em que os próprios têm comportamentos que representam um
perigo e os pais ou cuidadores não conseguem fazer parar, como seja
‘bullying’, consumo de drogas, álcool ou dependência de jogo.De
acordo com a presidente da CNPDPCJ, estas são as tipologias que mais
aparecem, tendo sublinhado que os comportamentos de perigo na infância e
juventude “continuam com uma expressão muito grande” e tendem a começar
cada vez mais cedo, com casos já de crianças com 11 anos.Referiu
que a dependência do jogo “também teve um ligeiro aumento” e alertou
para a dependência do ecrã, apontando que quando não há supervisão
parental as crianças podem estar a colocar-se em perigo mesmo estando
dentro de casa, ficando vulneráveis a perigos como o ‘sexting’ ou o
‘ciberbullying’.Rosária Farmhouse apontou
que os maus tratos na infância são transversais na sociedade e que
“estão presentes em todas as classes sociais”, sublinhando que nas
classes socioeconómicas mais favorecidas os casos “muitas vezes se
tornam mais invisíveis porque têm formas de disfarçar melhor” e “quem
está à volta não está tão atento”.“Nesse
sentido, esta campanha do mês de abril é muito [uma] chamada de atenção
de combater a indiferença a quem está à nossa volta e ficarmos na
certeza que quem comunica situações de perigo o está a fazer para bem da
criança e não contra ninguém”, defendeu.Sublinhou
que uma atuação atempada e uma intervenção adequada são os únicos
modelos que funcionam no combate aos maus tratos na infância e que, por
isso, todos são “poucos para fazer este caminho de prevenção”.Rosário
Farmhouse destacou que no dia 28, para terminar de assinalar o mês, vai
decorrer no Terreiro do Paço, em Lisboa, a construção de um laço azul,
tal como noutros pontos do país, com a ajuda de 1.500 crianças.O
mês da prevenção contra os maus tratos na infância tem vindo a ser
assinalado pelas 300 CPCJ dispersas no país, em conjunto com a Comissão
Nacional, com inúmeras iniciativas, desde seminários, caminhadas,
concursos de música ou poesia, até edifícios simbólicos que em cada
concelho se iluminam de azul.