Maternidade partilhada tem cada vez mais procura entre casais de mulheres

Hoje 09:45 — Daniela Arruda

O desejo de ter um filho pode ser hoje concretizado de variadíssimas formas. No caso de casais de mulheres, o método ROPA (Receção de Ovócitos da Parceira) permite que ambas façam parte do processo. Esta possibilidade tem vindo a ter cada vez mais procura nos Açores.Na prática, é uma técnica de Procriação Medicamente Assistida (PMA) para casais de mulheres. Uma delas dá os seus oócitos ou óvulos, que são fecundados em laboratório com recurso a espermatozoides de dador. Depois, o embrião é transferido para o útero da outra parceira, que irá engravidar e levar a gestação até ao fim.A Meka Center começou a fazer esta técnica pouco tempo depois de o método ser aplicado no continente. “A primeira criança resultante da aplicação desta técnica por nós nasceu três meses depois do primeiro nascimento pós ROPA em Portugal”, revela Rui Mendonça, médico ginecologista e obstetra e diretor clínico da Meka Center.O útero influencia quem nós somosEstá errado quem julga que o útero não influencia o desenvolvimento do embrião. Pelo contrário, tem influência através de mecanismos epigenéticos.“Hoje sabemos que aplicado mais profunda do que se imaginava há alguns anos atrás, designadamente através da epigenética”, explica Rui Mendonça.Por outras palavras, “os embriões que nos deram origem, se fossem desenvolvidos em úteros diferentes dos das nossas mães, nós seríamos pessoas diferentes”.Por isso, o especialista considera que “este é um tema fascinante da reprodução em geral e da PMA em particular”.Cerca de 50% por tentativaO sucesso do tratamento depende sobretudo da idade e da reserva ovárica da mulher que dá os óvulos, e a condição do útero da mulher que recebe o embrião também tem influência.“De uma forma simplificada podemos dizer que a taxa de gravidez pós transferência de um embrião em fase de blastocisto (embrião com cinco a seis dias) é aproximadamente de 50% em cada tentativa”.Mas tudo depende, esta percentagem não deve ser uma referência geral nem uma garantia individual de gravidez. Pois, a probabilidade varia de acordo com as características clínicas de cada caso.Comparticipação até aos 45 anosRelativamente à comparticipação, Rui Mendonça explica que existem diferenças entre o continente e os Açores.No continente, a técnica pode ser aplicada entre os 18 anos e os 49 anos e 365 dias. Mas, apesar destes limites legais, o Serviço Nacional de Saúde “só comparticipa os procedimentos, no continente português, até aos 40 anos”, explica o especialista.Nos Açores, não é bem assim. Quando a lei de PMA foi aplicada na Região, Rui Mendonça propôs à Secretaria Regional da Saúde que o Serviço Regional de Saúde (SRS) considerasse os 20 anos como idade mínima, em vez dos 18.“Pois, na perspetiva da Obstetrícia queremos evitar gravidezes em mulheres com menos de 20 anos, não fazia sentido fazer técnicas de PMA a pessoas com menos idade”, contextualiza.Em contrapartida, propôs o alargamento para, pelo menos, os 45 anos. “Esta proposta foi aceite e mantém-se até hoje”, afirma.Pagamentos com 14 meses de atrasoA Meka Center continua a realizar os tratamentos e não tem lista de espera depois de os utentes chegarem à clínica. O problema, segundo Rui Mendonça, está nos pagamentos por parte das entidades hospitalares: “O último pagamento foi referente à fatura de junho de 2025”.E acrescenta: “Estamos a falar de um atraso de 14 meses, e o atraso anterior foi de três anos. Apesar disso, continuamos a tratar os beneficiários e a aplicar as técnicas sem lista de espera”.O médico fala ainda de outro constrangimento: a referenciação de utentes. “As dificuldades nas acessibilidades estão todas a montante da Meka Center. Alguns Hospitais e Centros de Saúde empatam as pessoas em vez de as referenciarem para a clínica com a celeridade merecida”.O tempo conta sempreA rapidez é particularmente importante nos casos de doentes oncológicos que querem preservar a sua fertilidade antes de começarem os tratamentos que podem prejudicar os ovários ou os testículos.Na Meka Center, segundo Rui Mendonça, estes doentes são muitas vezes atendidos no mesmo dia em que chega a requisição hospitalar.A possibilidade de preservar óvulos e espermatozoides antes do tratamento deixa a porta aberta para que, no futuro, haja a possibilidade de conceber.“É difícil imaginar a felicidade de uma pessoa que perante o diagnóstico de um cancro lhe é oferecida a possibilidade de preservar a sua fertilidade. Depois do tratamento oncológico voltam à clínica e, com os gâmetas preservados, podem concretizar o sonho de ter um filho”.