Massificação do teletrabalho não é vantajosa para a Administração Pública
17 de jul. de 2020, 09:18
— Lusa/AO Online
“A Frente Comum entende que a massificação do
teletrabalho não é vantajosa para os trabalhadores nem para os serviços
da Administração Pública. Estamos a falar de um quadro em que os
trabalhadores da Administração Pública são em número insuficiente para
dar resposta às necessidades da população e, portanto, o teletrabalho
ainda pode tirar mais gente do atendimento presencial”, disse aos
jornalistas o dirigente sindical, à entrada para a segunda reunião com o
Governo sobre o teletrabalho, onde estão presentes também
representantes da Frente Sindical e da Federação de Sindicatos da
Administração Pública (FESAP).“O
teletrabalho, sendo uma solução pontual, para problemas pontuais de
alguns trabalhadores e de alguns serviços, não pode ser massificado,
porque não é essa a natureza dos serviços da Administração Pública”,
acrescentou.Neste sentido, Sebastião
Santana sublinhou que qualquer alteração legislativa no que diz respeito
ao regime de teletrabalho terá que “defender os interesses dos
trabalhadores”.A Frente Comum espera,
então, que o Governo apresente, na reunião de hoje, uma proposta de lei,
para depois tomar uma “posição definitiva” sobre o teletrabalho.O
dirigente sindical admitiu ainda não perceber como é que o Governo
pretende colocar 25% dos trabalhadores da Administração Pública em
teletrabalho, até 2023, tendo em conta “a falta de pessoal que existe”.Em
30 de junho, as estruturas sindicais da Administração Pública
manifestaram que querem negociar com o Governo as alterações ao
teletrabalho no setor, não aceitando ficar apenas pelos contributos
técnicos e no final serem confrontadas com um diploma já pronto.A
FESAP, a Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública e a Frente
Sindical liderada pelo Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE),
após as respetivas reuniões com técnicos do Ministério da Modernização
do Estado e da Administração Pública (MMEAP), foram unânimes em afirmar
que querem uma proposta do Governo, para negociar.O
secretário-geral da FESAP, José Abraão, disse à agência Lusa que a
reunião técnica serviu apenas para a federação manifestar as suas
preocupações relativamente a matérias relacionadas com o teletrabalho
que “não estão devidamente acauteladas”.“Somos
a favor do teletrabalho, desde que voluntário, mas consideramos que a
regulamentação do teletrabalho tem de ser feita através da negociação
coletiva, de forma a garantir o direito a desligar, o direito à
privacidade, o tempo de trabalho, a saúde e proteção dos trabalhadores
face aos eventuais danos causados pelo teletrabalho e os meios
indispensáveis à prestação do serviço”, afirmou.A
Fesap considerou então que as reuniões com técnicos do MMEAP “são pouco
produtivas, porque eles só ouvem” e, por isso, transmitiu-lhes a
necessidade de se realizar em breve um encontro com a ministra ou o
secretário de Estado da tutela, para discutirem propostas.“Não
podemos correr o risco de não negociarmos e depois ser-nos apresentado
um diploma para darmos parecer”, afirmou o sindicalista.José
Abraão disse ainda à Lusa que não compreende a prioridade que o Governo
está a dar ao teletrabalho, “deixando para trás matérias importantes
para a generalidade dos trabalhadores da Administração Pública”.
O coordenador da Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública,
Sebastião Santana, disse que esta estrutura sindical não tem interesse
em continuar com as reuniões técnicas.“Dissemos
na reunião de hoje que estamos disponíveis para negociar, que não foi o
que se passou, por isso o Governo, se quer alterar a legislação sobre
teletrabalho, deve apresentar uma proposta concreta”, disse o
sindicalista.Sebastião Santana disse no
dia 30 de junho à Lusa que a Frente Comum não iria comparecer à próxima
reunião, a menos que surgisse uma proposta concreta da parte do Governo e
que este participe no encontro, para haver negociação.“Não faz qualquer sentido continuar a participar em reuniões se não for para negociar”, considerou.A
presidente do STE, Maria Helena Rodrigues, também lamentou que não
tivesse sido apresentada qualquer proposta do Governo na reunião, mas
prometeu contributos para o processo de revisão da legislação que regula
o teletrabalho.A sindicalista reconheceu
que o recurso ao teletrabalho durante a pandemia foi acolhido pela
generalidade dos associados do STE como positivo, embora as condições de
trabalho não tenham sido iguais para todos, tendo em conta as
dificuldades de acesso à internet no interior do país.O
Governo estima que sejam necessários “cerca de quatro milhões de euros”
anualmente para que todos os funcionários públicos em teletrabalho
tenham um computador portátil do serviço para trabalharem a partir de
casa.