Mario Draghi diz que UE deve ser mais assertiva com EUA de Donald Trump
Hoje 17:28
— Lusa/AO Online
Num
discurso ao receber o Prémio Carlos Magno 2026 em Aachen na Alemanha, o
ex-presidente do BCE afirmou que a União Europeia deve adotar um
"federalismo pragmático" para ser mais decisiva. "O parceiro do qual ainda dependemos tornou-se mais confrontacional e imprevisível", disse Draghi. "A Europa procurou a negociação e o compromisso. Na maior parte, não funcionou", afirmou. "Uma postura destinada a desanuviar está, em vez disso, a convidar a uma maior escalada", referiu. "A
Europa precisa da capacidade para responder de forma mais assertiva
para restaurar a parceria para uma base mais equitativa. O que nos está a
impedir é a segurança", defendeu o ex-presidente do BCE. "A
mudança da atitude da América em relação à segurança europeia não deve
ser vista apenas como uma ameaça", afirmou Draghi, considerando que a
mesma "e também um alerta necessário". "Num
mundo onde as alianças estão em constante evolução, cada dependência
estratégica deve agora ser reexaminada. Pela primeira vez na memória
viva, estamos verdadeiramente sozinhos juntos", adiantou. Draghi
considerou que "a Europa está a reagir a esta nova realidade", mas está
a fazê-lo dentro de um sistema que nunca foi projetado para enfrentar
desafios daquela magnitude". "Pela
primeira vez desde 1949, aqui está a possibilidade de que os Estados
Unidos possam não mais garantir a nossa segurança nas condições que
antes considerávamos garantidas. Nem a China oferece um ponto de
referência alternativo. A nossa experiência atual é que a ação ao nível
dos (27) da UE muitas vezes não consegue atender ao que o momento
exige", disse. "O resultado é uma ação que
pode ser tão inadequada à escala do desafio que se torna pior do que a
inação. Devemos quebrar este ciclo. Os países que sentem o peso deste
momento de forma mais aguda e entendem que a janela para a ação não
permanecerá aberta indefinidamente, devem ser livres para avançar. É
isso que eu chamei de federalismo pragmático", concluiu. Antes
da entrega do prémio - dotado com um milhão de euros - pronunciaram
discursos em homenagem a Draghi o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o
primeiro-ministro grego, Kiriakos Mitsotakis.Merz
destacou Draghi como salvador do euro em tempos de crise e pediu
reformas para enfrentar a situação atual em que os princípios sobre os
quais a UE foi criada estão ameaçados."O
senhor estabilizou a zona euro e o euro com recursos controversos. Era
um risco. Poderia ter fracassado, mas teve sucesso. Hoje o euro está
firme e estamos-lhe gratos a si", disse Merz.Merz
citou parte do discurso proferido por Draghi ao receber em Espanha o
Prémio Princesa de Astúrias de Cooperação Internacional 2025 para
lembrar a pressão que os princípios europeus vivem atualmente."Confiamos
demais que a força das ideias humanistas e ocidentais transformaria o
mundo num reino de liberdade e paz. Enganámo-nos. Mas ver o erro desse
otimismo ingénuo não implica abandonar a esperança de que as regras
prevaleçam em vez da arbitrariedade", sublinhou Merz."A
Europa despertou, amplia a sua capacidade de defesa, identifica seus
recursos de poder e está disposta a usá-los", acrescentou.Mitsotakis também lembrou Draghi como salvador do euro no meio de uma "crise existencial" para a Europa.À
cerimónia assistiram 700 pessoas, incluindo a atual presidente do BCE,
Christine Lagarde, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der
Leyen. O Prémio Carlos Magno é concedido
todos os anos, tradicionalmente no Dia da Ascensão e desde 1950, a
pessoas que se destacaram pelas suas contribuições para a unidade
europeia.Em 2023, o prémio foi para o Presidente ucraniano, Volodímir Zelensky.