Maré de Agosto: o festival dos encontros, das despedidas e dos sons diferentes
18 de ago. de 2025, 12:22
— Rui Jorge Cabral
O Festival Maré de Agosto, na ilha de Santa Maria, que este ano
acontece entre 20 a 23 de agosto, vai para a sua 41.ª edição. E não é
por acaso que este festival se tornou ao longo dos anos o mais antigo
dos Açores e de Portugal, em continuidade. Porque o que se passa em
Santa Maria, na Maré de Agosto, é algo de especial e irrepetível. Em
declarações ao Açoriano Oriental, o presidente da Associação Cultural
Maré de Agosto, Rui Parece Baptista, afirma que a ‘Maré’, como é
conhecido o festival, “sempre foi um ponto de encontro regional dos
amigos. É aqui que a gente encontra os amigos da Terceira, do Faial, de
São Jorge, das ilhas todas, que vêm à Maré de Agosto. É aqui o
reencontro”.Mas o festival Maré de Agosto é também um festival de
despedida das ilhas para muitos jovens que, aos 18 anos, se preparam
para prosseguir estudos noutras paragens e que vivem a Maré de Agosto
como “um ponto de despedida para a vida, para a sua futura vida
profissional. E este sentimento “nota-se perfeitamente na nossa
juventude mariense”, afirma Rui Parece Baptista. O Festival Maré de
Agosto ganhou também a sua imagem de marca pelos sons do mundo que todos
os anos traz a Santa Maria, a chamada ‘World Music’.Uma opção que
começa nos primórdios do festival, recorda Rui Parece Baptista, que “foi
criado com este conceito de trazer bandas diferentes e sons diferentes
que não eram ouvidos nos Açores”, como o jazz, o blues, o folk, que se
misturavam com o rock, a música tradicional portuguesa ou o fado.Com
o tempo, começam também a aparecer outros festivais nos Açores, com um
cartaz mais comercial e “nós passámos aqui uma pequena travessia no
deserto”, lembra o presidente da Associação Cultural Maré de Agosto,
“porque os nossos festivaleiros também tinham essa necessidade de ir a
festivais comerciais”.Uma travessia no deserto “assumida” pela Maré
de Agosto. “Mantivemos a nossa linha e nunca nos desviámos disso”,
garante o presidente da Associação Cultural Maré de Agosto, o que fez
com que “retomássemos lentamente nos últimos anos o nosso público, que
vem à Maré de Agosto precisamente por ser um festival alternativo ao que
existe nos Açores, onde se pode encontrar outras sonoridades”. Rui
Parece Baptista salienta ainda que os nossos cartazes “são sempre, ou
quase sempre, com bandas que normalmente não são vistas nos Açores e nem
são vistas em Portugal, e isso também marca muito aqui o festival”.Isto
porque, o festival Maré de Agosto, ao longo de 41 anos, habituou os
festivaleiros a irem a Santa Maria sem se preocuparem sequer com os
nomes em cartaz, “porque é garantido que vai haver bom som e que vai
haver bandas de quem nós vamos gostar, apesar de não as conhecermos”,
garante Rui Parece Baptista. O cartaz do festivalEste
ano e conforme refere a Associação Cultural Maré de Agosto em nota de
imprensa, a estreia do ‘Palco Terra’ na Almagreira marca “uma nova era
do festival”, sendo este “um espaço ecológico e inovador”, um novo palco
que “nasce como um tributo à terra e à comunidade local, reforçando o
compromisso da organização com a sustentabilidade ambiental e a
descentralização cultural”.A estreia do ‘Palco Terra’ está marcada
para o dia 20 de agosto, com um concerto intimista por Cristóvam, um
cantor e compositor açoriano com projeção nacional e internacional. Relativamente
aos tradicionais concertos da Praia Formosa, no segundo dia da Maré, 21
de agosto, atuarão os brasileiros Bloco do Caos, que propõem uma
explosão de reggae, afrobeat e samba, transformando clássicos em energia
pura. Seguem-se os portugueses Bateu Matou, um ‘supergrupo’ de
percussão e eletrónica, terminando o dia DJ Souza, “o mais
internacional dos DJs açorianos”, refere a organização do festival Maré
de Agosto em nota de imprensa. No terceiro dia do festival, 22 de agosto, atuam os portugueses Macacos
do Chinês, que regressam a Santa Maria após 15 anos, com a sua fusão
criativa de estilos. Segue-se o alemão Patrice, um dos nomes maiores do
reggae europeu contemporâneo, terminando o dia com a DJ Mari Ferrari,
que já atuou em mais de 70 países.No quarto e último dia do
festival, a 23 de agosto, atua a portuguesa Bia Caboz, cuja sonoridade
funde o fado com a pop e a eletrónica. Segue-se a banda alemã Lychee
Lassi, uma banda icónica de Berlim com fusão de hip hop, jazz e funk e
os britânicos Ibibio Sound Machine, um dos grupos afro-eletrónicos mais
relevantes da atualidade.E caberá ao português DJ Tecnick encerrar a Maré de Agosto de 2025 com um set eletrónico “explosivo”.Ainda
conforme refere a Associação Cultural Maré de Agosto em nota de
imprensa, a sustentabilidade, a inclusão e a comunidade são três
conceitos que marcarão igualmente o festival deste ano, “enquanto espaço
de encontro geracional apostando na inclusão social”, com a
participação de utentes do CACI da Santa Casa da Misericórdia de Vila do
Porto, mas também através do desenvolvimento de campanhas contra as
dependências do Município de Vila do Porto e da Casa do Povo de Santa
Bárbara da Ilha Terceira, reafirmando ainda o festival o seu compromisso
“com a ecologia e responsabilidade social através da criação do Palco
Terra”.Em nota de imprensa, é também referido que o festival Maré
de Agosto tem sido possível de realizar graças ao apoio da Câmara
Municipal de Vila do Porto, do Governo Regional dos Açores e de vários
parceiros privados, a que se junta a colaboração voluntária de mais de
130 pessoas.“O público gosta deste tipo de música”Como
já foi referido, o festival Maré de Agosto, na ilha de Santa Maria, tem
como imagem de marca a World Music - Música do Mundo. Rui Parece
Baptista é o atual presidente da Associação Cultural Maré de Agosto, mas
já fez parte no passado da direção do festival, da qual saiu há 10
anos, para regressar agora como presidente. Questionado sobre se os
festivaleiros gostam deste tipo de música, Rui Parece Baptista recua aos
primeiros tempos do festival. “O público da Maré gosta particularmente
deste tipo de música”, começa por afirmar, uma vez que “este estilo de
música que o festival adotou vem das suas raízes”. Quando o Festival
Maré de Agosto teve a sua primeira edição, em 1984, “este festival
começa com artistas açorianos, de Santa Maria e de São Miguel, até
porque, dos sócios fundadores, grande parte deles também eram de São
Miguel”, recorda Rui Parece Baptista. Rapidamente, o festival Maré
de Agosto começou a trazer os sons do jazz, em famosas ‘jam sessions’
com vários músicos à mistura e “foi seguindo com essa música que não era
habitual ou que não se ouvia nos Açores, juntamente com música
tradicional e regional, isto foi desde os primórdios que foi criado este
conceito”, recorda o presidente da Associação Cultural Maré de Agosto. Ao
longo dos anos a organização foi crescendo, o festival foi se
consolidando e cada vez mais foi ganhando uma dimensão que ultrapassa as
fronteiras dos Açores, com bastantes artistas nacionais, mas sempre
intercalados com artistas internacionais.E uma das questões que
muito se colocou nos últimos cinco anos foi a do efeito que o fim do
transporte marítimo de passageiros e viaturas entre São Miguel e Santa
Maria teve no número de festivaleiros na ‘Maré’, apesar de entretanto
ter sido criada a Tarifa Açores no transporte aéreo a 60 euros para os
residentes dos Açores.Para Rui Parece Baptista, “efetivamente, Santa
Maria enchia-se de pessoas com o transporte marítimo, sem dúvida
alguma. Era bom para a ilha, economicamente e turisticamente”. Contudo,
acrescenta o presidente da Associação Cultural Maré de Agosto, “a
verdade é que, por vezes, o barco trazia milhares de pessoas, milhares
de jovens, que é o nosso público-alvo mas, efetivamente, o número de
entradas no festival, após acabar o barco, é de facto menor, mas a
redução não foi muito significativa”.Além disso, acrescenta Rui
Parece Baptista, “o nosso público amadureceu”, sendo a Maré de Agosto
“um festival de família”. E conforme conclui o presidente da Associação
Cultural Maré de Agosto, “para quem já veio ao festival, sabe o espaço
que temos, que não é muito grande, mas é um espaço extremamente
agradável, em anfiteatro natural e relvado onde, na Maré de Agosto,
podemos ver fotografias de há 30 anos, ou de há 40 anos, onde a parte
superior do recinto está toda forrada com mantas com famílias cujos
membros vão de meses de idade, de bebés de colo a pessoas com 70 ou 80
anos e isso ainda existe”.