Marchas de Lisboa retomam preparativos e só querem um Santo António sem covid
11 de fev. de 2022, 18:38
— Lusa/AO Online
Mário
Rui Ferreira, da Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, que organiza a
marcha de Alcântara, parou de mexer nos arcos no dia 12 de março de 2020
e recomeçou há cerca de um mês, quando os marchantes se reuniram com o
novo vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Diogo
Moura (CDS-PP), e ouviram que a autarquia tinha intenção de dar luz
verde ao desfile deste ano. “Agora tenho
coisas para pôr nos arcos que já nem me lembro onde é que eram. Mas
muito satisfeito estou, porque estamos há tanto tempo parados e é uma
festa que não se pode perder”, afirmou.
Também Paulo Lemos, organizador da marcha da Penha de França, com base
na coletividade Sporting Clube da Penha, está muito satisfeito por
“voltar ao novo normal” e afirma que a marcha de 2022 “já está em
velocidade cruzeiro”. “Estamos a retomar
tudo o que estava iniciado e já estamos a pôr na prática a conceção de
figurinos, de arcos e de tudo o que compõe a marcha”, disse, em
declarações à Lusa. Os temas das marchas serão os mesmos, porque as coletividades já tinham “despesa feita, material comprado, músicas prontas”.
“Quando o concurso foi suspenso, já muitas coisas estavam em
andamento. Portanto, agora é retomarmos aquilo que já estava. A EGEAC
[Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural] também mantém o
tema dos 100 anos da Amália, que já não vão ser 100, vão ser para aí
102, mas não importa nada, o que importa é a Amália e que estamos
preparados para o que for”, afirmou João Ramos, organizador da marcha de
Alfama, preparada pelo Centro Cultural Dr. Magalhães Lima.
Num momento em que está a ser preparada uma candidatura para as
marchas populares de Lisboa serem reconhecidas como Património Imaterial
da Humanidade, seria negativo passar mais um ano sem as festas que mais
mexem com a cidade, com o comércio e com os bairros, mas a antevisão de
milhares de pessoas nos arraiais, num cenário ainda de pandemia,
preocupa os organizadores. Se para Mário
Rui Ferreira todos têm de “aprender a viver com a pandemia”, João Ramos
considera que “há ainda muito por resolver ao nível da organização”.
“Estamos todos convencidos que de vai tudo ser normal, como nos
outros anos. Qual é aqui a questão que pode não ser normal, como nos
outros anos? A questão da Avenida. Como controlar mais de 100 mil
pessoas, caso se desfile na Avenida?”, questionou.
Vítor Silva, organizador da marcha do Bairro Alto, destacou que a
saúde e a segurança devem ser prioridade para toda a gente envolvida nas
marchas, que só na sua coletividade, o Lisboa Clube Rio de Janeiro, são
mais de 100. Levantou ainda outra
questão que falta resolver: “Qual a solução para o caso de marchantes
ficarem infetados com o coronavírus?”. O regulamento prevê expressamente
que cada marcha apresente 24 pares de marchantes e apenas um par
suplente, além de duas mascotes, um padrinho e uma madrinha.
“Se temos o azar de estarem quatro ou cinco pessoas infetadas, não
sabemos exatamente o que pode acontecer, mas temos de estabelecer uma
regra agora e não quando chegar a altura”, defendeu, salientando que
esta questão já foi apresentada à CML.
Vítor Silva entende que o regulamento deveria ter “uma adenda ou uma
norma transitória na qual esteja bem explícito que, no caso de acontecer
algum azar por causa da pandemia, a marcha não será desclassificada”,
até porque dessa forma ficaria automaticamente arredada também da
competição no próximo ano. Depois de
dois anos de paragem, no Bairro Alto a equipa das marchas mantém-se, mas
os marchantes não são todos os mesmos. Na Penha de França mantém-se 95%
dos marchantes, em Alcântara entraram alguns novos, porque a vida de
outros tantos mudou, e em Alfama saíram quatro. As Festas de Lisboa decorrem no mês de junho e têm como momento alto a noite de Santo António, que se celebra de 12 para 13.
Na terça-feira, o vereador da Cultura revelou à Lusa que as festas
serão retomadas este ano, com marchas, arraiais e casamentos de Santo
António, num “risco partilhado” entre organização e participantes, após
dois anos de suspensão, devido à pandemia de covid-19.
Diogo Moura afirmou que está previsto o habitual desfile na Avenida
da Liberdade, mas existe como plano B a possibilidade de a atuação
decorrer no Altice Arena, que tem lugares marcados nas bancadas.
Salientando que as coletividades passaram dois anos de muitas
dificuldades, o vereador revelou ainda a intenção de manter a atribuição
de 30 mil euros a cada grupo participante.
A seleção dos participantes é da responsabilidade das coletividades,
que podem colocar novos requisitos no momento da inscrição, como a
obrigatoriedade de certificado de vacinação, mas o conselho do vereador é
que tenham mais marchantes do que o número obrigatório, “para terem
alguma salvaguarda caso alguém de repente fique em isolamento ou
contraia covid-19”.