Marcelo pede Brasil "de liberdade, de democracia, de justiça, de sonho"
8 de set. de 2022, 17:16
— Inês Escobar de Lima/Lusa/AO Online
Marcelo
Rebelo de Sousa discursava numa sessão solene comemorativa dos 200 anos
da independência do Brasil, no Congresso Nacional brasileiro, em
Brasília."Nós, portugueses, amamos
profundamente no Brasil e em vós, brasileiros, essa alma enleante,
indomável, tenazmente obstinada, que vos faz diferentes, que vos faz
irrepetíveis na humanidade", acrescentou.O
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, iria fazer o discurso de
encerramento, mas cancelou a sua participação nesta sessão no Congresso e
não ouviu a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, que acabou por ser a
última.O Presidente português fez da sua
intervenção essencialmente um agradecimento aos "queridos irmãos
brasileiros" pela sua independência e pela nação que construíram, e ao
falar do passado colonial mencionou as "escravidões, explorações e
discriminações seculares"."Que para sempre
viva o Brasil, que para sempre viva a fraternal amizade entre o Brasil e
Portugal, que para sempre viva a projeção no mundo da nossa mais vasta
comunidade de fala, de língua, que no Brasil tem o esteio mais forte, o
pilar mais incansável, a mais eterna juventude, o mais perfeito futuro.
Obrigado Brasil", declarou, ao encerrar o seu discurso.Antes,
discursaram os presidentes do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, e da
Câmara dos Deputados, Arthur Lira, assim como os responsáveis pelas
comissões constituídas nas duas câmaras brasileiras para estas
comemorações, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux.Marcelo
Rebelo de Sousa apresentou-se como um "português, humilde servidor da
vontade do povo, mas também neto, filho e irmão de portugueses acolhidos
no Brasil, e pai e avô de brasileiros" – tem uma neta brasileira e um
filho agora com dupla nacionalidade – e manifestou-se emocionado por
usar da palavra no Congresso brasileiro.Apontou
o Brasil como "farol pioneiro para as independências de outros Estados
irmãos" antigas colónias portuguesas e como "a raiz" da criação da
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), agradecendo aos "mais
de 220 milhões de falantes e de cantantes de uma língua ainda mais
universal pelo génio de autores e cantores brasileiros".Em
seguida, nomeou "escritores como Mário de Andrade, Manuel Bandeira,
João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de
Moraes, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge
Amado, Cecília Meireles, Mário Quintana, Monteiro Lobato, Lygia Fagundes
Telles"."E músicos como Heitor
Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso, Cartola, Luiz Gonzaga, João
Rubinato [mais conhecido por Adoniran Barbosa, o seu nome artístico],
Dorival Caymmi, Tom Jobim, Baden Powell, Elis Regina ou Cazuza – só para
evocar alguns dos muitos que já nos deixaram", completou.Marcelo
Rebelo de Sousa agradeceu também ao Brasil pela "afirmação económica e
institucional no mundo" e pelos "anseios de inclusão", que elegeu como
"o grande desafio deste tempo", que está "para além das conjunturas
passageiras de cada período ou instante".No
seu entender, os brasileiros têm a "capacidade de nunca desistir, de
nunca resignar, de nunca tomar por perfeito o que está por cumprir" e os
portugueses acompanham com "emocionante orgulho" os seus sucessos e
"sonhos de mais e melhor".O Presidente
português deixou mensagens de "carinho forte e permanente" aos
imigrantes brasileiros em Portugal e "solidariedade comovida" para com
os portugueses que emigraram para o Brasil fugindo de "pobrezas
económicas e sociais ou perseguições cívicas e políticas".Sobre
a construção da nação brasileira, disse que "D. Pedro, filho
primogénito do rei de Portugal D. João VI, proclamou a independência"
dando expressão a "tantas lutas pela libertação do domínio de 322 anos,
desde que os brasileiros originários conheceram os portugueses, e depois
as suas capitanias e o seu império colonial"."Império
colonial que lhes daria língua, vivências religiosas e culturais
decisivas, unidade e dimensão únicas, e até transitoriamente a
originalidade de uma capital de império fora da capital desse império.
Mas lhe custaria, e a um sem número de africanos escravidões,
explorações e discriminações seculares, tão fundas que não cessariam de
um lado e de outro do Atlântico com o mero assomo histórico de D.
Pedro", acrescentou.Marcelo Rebelo de
Sousa lembrou que em 1922 o então Presidente de Portugal António José de
Almeida esteve nas celebrações do centenário da independência do Brasil
e leu excertos da sua intervenção perante o Congresso brasileiro.Nessa
ocasião, o Presidente português agradeceu aos brasileiros "o favor" que
prestaram a Portugal com a independência, considerando que os
portugueses foram "grandes inventores do mundo", mas estavam "um pouco
exaustos e debilitados".Os brasileiros,
sem a independência, ficariam "sujeitos à cobiça de adversários e
inimigos que lhes tomariam conta desta ou daquela parcela", e quanto aos
portugueses António José de Almeida observou: "Sem podermos nem
devermos conservá-los sob a nossa ação, sob a nossa tutela, tudo
teríamos perdido aqui: a hospitalidade para os nossos compatriotas, a
manutenção de nossas tradições e, mais do que isto: essa língua
admirável que falamos".Depois de citar
estas passagens, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que queria agradecer
aos brasileiros "mais ainda do que em 1922, por um longo e rico caminho"
do qual os portugueses são "sempre devedores".Nesta
sessão estiveram presidente Assembleia da República, Augusto Santos
Silva, segunda figura do Estado português, e o secretário de Estado dos
Negócios Estrangeiros e das Comunidades, Francisco André.A
cantora Fafá de Belém, luso-brasileira, interpretou os hinos nacionais
do Brasil e de Portugal e fez questão de saudar o "Presidente Marcelo
querido" e toda a comunidade de língua portuguesa, exclamando: "Viva
Portugal, viva o Brasil, viva o nosso povo".