Marcelo mais vigilante com Governo de maioria absoluta
PR/7 anos
23 de jan. de 2023, 11:43
— Lusa/AO Online
Quando deu posse ao XXIII
Governo Constitucional, em 30 de março de 2022, o chefe de Estado
prometeu ser "institucionalmente solidário e cooperante para mais estes
quatro anos de aventura coletiva", mas ao mesmo tempo "vigiando
distrações e adiamentos quanto ao essencial, autocontemplações,
deslumbramentos".Dirigindo-se a António
Costa, único primeiro-ministro dos seus dois mandatos presidenciais até
agora, avisou-o de que "não será politicamente fácil" a sua substituição
na chefia do Governo a meio desta legislatura, que se estende até ao
outono de 2026."Agora que ganhou, e ganhou
por quatro anos e meio, tenho a certeza de que vossa excelência sabe
que não será politicamente fácil que esse rosto, essa cara que venceu de
forma incontestável e notável as eleições possa ser substituída por
outra a meio do caminho", disse-lhe.Marcelo Rebelo de Sousa tem pela frente mais de três anos até concluir o seu segundo e último mandato, em março de 2026.O
terceiro executivo chefiado por António Costa tem vivido tempos de
turbulência sobretudo desde novembro passado, com sucessivos casos
polémicos suscitados pela comunicação social envolvendo governantes, que
provocaram demissões e remodelações.No
arranque de 2023, na sua mensagem de ano novo, o Presidente da República
defendeu que o Governo de maioria absoluta tem por isso mesmo
"responsabilidade absoluta" e só ele e a sua maioria "podem enfraquecer
ou esvaziar" a estabilidade política, "ou por erros de orgânica, ou por
descoordenação, ou por fragmentação interna, ou por inação, ou por falta
de transparência, ou por descolagem da realidade".Dias
depois, em 06 de janeiro, considerou que "agora é fundamental que o
Governo governe e governe bem" e adiantou que "não contem com a ideia de
dissolver o parlamento" e convocar eleições."Não,
não contem comigo com isso. Portanto, é melhor, à partida, não
contarem. Contam comigo para ter o mesmo comportamento institucional que
tive durante sete anos", reforçou.Antes,
entre outubro e novembro de 2022, foi o período de mais críticas ao
chefe de Estado desde que iniciou funções, por declarações controversas
sobre o processo de recolha de queixas de abusos sexuais contra crianças
na Igreja Católica Portuguesa e sobre os direitos humanos no Qatar."Haver
400 casos não me parece que seja particularmente elevado, porque
noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos",
afirmou, em 11 de outubro, a propósito do número de testemunhos de
abusos sexuais recolhidos em Portugal.Estas
palavras foram condenadas de imediato nas redes sociais por dirigentes e
deputados da esquerda à direita, mas Marcelo Rebelo de Sousa foi
defendido pelo primeiro-ministro, António Costa, que lhe manifestou
solidariedade e rejeitou que tivesse de pedir desculpa.O
Presidente da República acabou no entanto a desculpar-se perante as
vítimas, "se porventura entenderam, uma que seja das vítimas, que está
ofendida".Em várias ocasiões, o chefe de
Estado disse que a sua intenção era salientar que o número de queixas
está abaixo do que estima ser a realidade de casos em Portugal.Passado
um mês, quando comentava um jogo de preparação da seleção portuguesa de
futebol antes do Mundial do Qatar, Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se à
situação dos direitos humanos nesse país: "Eu acho que o Qatar não
respeita os direitos humanos e, portanto, aquilo, toda a construção dos
estádios e tal, enfim, é muito discutível, mas esqueçamos isso, agora
concentremo-nos – nem é discutível, é criticável –, mas concentremo-nos
na equipa".Estas declarações feitas em 17
de novembro e a sua posterior ida ao Qatar para assistir à estreia da
seleção portuguesa valeram-lhe mais críticas, que o chefe de Estado
procurou colmatar com uma intervenção em Doha, antes do jogo, em defesa
dos direitos humanos, da liberdade e da inclusão de todos.Após
dois anos de pandemia de covid-19, a conjuntura económica agravou-se
com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa, em 24 de fevereiro de
2022, e consequente guerra que se prolonga há onze meses. A inflação em
Portugal chegou a atingir os 10% em outubro.O
Presidente da República intensificou a pressão sobre o Governo para não
desaproveitar os fundos europeus, com destaque para os do Plano de
Recuperação e Resiliência (PRR), e elegeu 2023 como "ano decisivo",
tendo em conta o ciclo de eleições nos anos seguintes até 2026.Nesta
legislatura, resultante de legislativas antecipadas nas quais se fechou
o ciclo da chamada "geringonça" do PS com os partidos à sua esquerda,
Marcelo Rebelo de Sousa foi confrontado com um terceiro decreto do
parlamento para despenalizar a morte medicamente assistida.Em
04 de janeiro, mal recebeu o diploma, enviou-o para o Tribunal
Constitucional para fiscalização preventiva da constitucionalidade, e
aguarda a decisão dos juízes. Mesmo se nenhuma norma for declarada
inconstitucional, pode ainda usar o veto político.O
Presidente da República, católico praticante, tem recusado expressar
publicamente a sua posição sobre a eutanásia. Em 2021, enviou o primeiro
decreto sobre esta matéria para o Tribunal Constitucional, que o
declarou inconstitucional por insuficiente densidade normativa, e usou o
veto político em relação à segunda versão por conter expressões
contraditórias.Em relação ao processo de
revisão constitucional aberto no parlamento – por iniciativa do Chega,
que nas legislativas de 30 de janeiro de 2022 elegeu a terceira maior
bancada – o chefe de Estado tem sublinhado que não lhe cabe qualquer
papel, nem sequer a possibilidade de veto.Ainda
assim, não deixou de apontar "dois pontos em que era importante haver
uma revisão: os metadados, para não haver chumbos consecutivos do
Tribunal Constitucional, e o problema da lei de emergência sanitária".A
meio de 2022, o PSD, maior partido da oposição, mudou de liderança, com
Rui Rio substituído por Luís Montenegro, em quem Marcelo Rebelo de
Sousa disse em julho ver uma "maior aproximação ao Presidente da
República" e até uma possível "colaboração especial" e que elogiou pelo
"esforço como não se via há muito tempo" para unir o partido.
Parecia-lhe que o sistema político se começava "a compor".No
fim do ano, porém, quando questionado sobre a possibilidade de
dissolver a Assembleia da República face aos casos no Governo,
considerou que nesta altura ainda "não é claro que surgisse uma
alternativa evidente e forte imediata, de um momento para o outro,
àquilo que existe no Governo" e que, "portanto, experimentalismo não é a
coisa melhor para a saúde das democracias".