Marcelo acaba o dia com meia hora de corte e costura
26 de out. de 2017, 06:37
— Lusa/AO Online
"Ó senhor
Presidente, desculpe de aqui lhe dizer, mas não podia estar pior, não
acha?", comentou a idosa, de 77 anos, que Marcelo Rebelo de Sousa
encontrou no Recolhimento de Santa Maria Madalena.Já de noite,
nesta ilha com cerca de 5.600 habitantes, e apesar de o seu programa
estar atrasado mais de uma hora, o chefe de Estado entrou nesta
instituição particular de solidariedade social (IPSS) e, sem pressa,
sentou-se à mesa com algumas idosas que faziam trabalhos manuais.O
Presidente da República ficou sentado mesmo em frente a Emília Melo, e
pôs-se também ele a recortar um coração num tecido plástico para depois o
coser a um pedaço de pano com um botão.Ouvindo a crítica de Emília, reagiu com surpresa: "Não podia estar pior? Acha que está muito mau? Mas isto é que é uma cidadã!"."Acho que foi um bocado injusta", acrescentou, reconhecendo, no entanto, que não é "muito bom em costura".A idosa riu-se, e observou: "O que não é fácil também tem o seu valor"."Eu sei, a quem o diz. Não imagina como é ser Presidente, também não é fácil", retorquiu Marcelo Rebelo de Sousa.O
chefe de Estado levou meia hora a tentar completar o trabalho, e
precisou de ajuda, mas não se descoseu em comentários políticos.Questionado
se é mais fácil coser e descoser na política do que prender um botão,
foi evasivo: "Sim, quer dizer, depende, há dias. Mas aqui está difícil,
está muito difícil".Com dificuldades na tarefa, o Presidente da
República desculpou-se com a tesoura, dizendo que "já conheceu melhores
dias", e logo ouviu uma resposta de Emília Melo: "E, se calhar, melhores
mãozinhas, melhores dedinhos"."Não sei se se diz isso a uma
pessoa que vem de fora", contestou Marcelo. Emília insistiu: "Diz-se,
diz-se, porque também a mão enfraquece, todas as nossas mãozinhas
enfraquecem".O Presidente queixou-se que não está "assim tão velhinho" e que, assim, ficava "com uns complexos".Os
dois acabaram, contudo, a dar dois beijinhos e trocar as respetivas
"obras de arte", ambas autografadas, e o chefe de Estado leu ainda uns
versos que Emília trouxe escritos de casa, nuns papéis com números de
telefone."Deus nos abençoe lá do céu / Nunca gostamos de guerra -
também eu não gosto / E que nos cubra com seu véu - bonito / E com o
nosso Presidente cá na terra", declamou Marcelo Rebelo de Sousa.Ao
fim de mais de meia hora de convívio, tirou uma fotografia de grupo e
deu por terminada a visita: "Vamos embora, o senhor comandante já está
nervoso".Antes de sair, provocou gargalhadas na sala, quando
disse que não podia levar os versos da senhora Emília consigo "porque
está aqui o telefone da dona Ana de casa, da dona Beatriz do Canadá, não
pode ser, fica sem os telefones todos". Na ilha de Santa Maria, o
Presidente da República demorou-se igualmente na Santa Casa da
Misericórdia de Vila do Porto, onde esteve com idosos e crianças que
frequentam as várias valências desta instituição, e assistiu a um
momento artístico no Centro de Atividades Ocupacionais para pessoas com
deficiência, ao som da música "Melhor de mim", cantada pela fadista
Mariza.Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se à atuação, cantarolando o
refrão: "É preciso perder para depois se ganhar / E mesmo sem ver,
acreditar / É a vida que segue e não espera pela gente / Cada passo que
demos em frente / Caminhando sem medo de errar".