Manto da Terra é menos misturado do que dizem os livros de geografia
25 de jan. de 2025, 11:00
— Lusa
Ambas as 'ilhas' foram
descobertas no final do século passado. Os investigadores definem-nas
como dois "supercontinentes" localizados entre o núcleo e o manto da
Terra: um sob África e o outro sob o Oceano Pacífico, ambos a mais de
2000 quilómetros abaixo da superfície da Terra."Estas
duas grandes ilhas estão rodeadas por uma espécie de 'cemitério' de
placas tectónicas que foram transportadas para lá por um processo de
subducção, em que uma placa submerge sob outra e se afunda da superfície
da Terra até uma profundidade de quase 3.000 quilómetros", realçou
Arwen Deuss, sismóloga da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, e
uma das autoras do estudo publicado na quarta-feira na revista Nature.Até
agora, os modelos sísmicos utilizavam apenas velocidades de onda para
distinguir a composição e as características térmicas de diferentes
partes da estrutura interna da Terra.A
investigação atual combinou as velocidades das ondas com uma técnica
chamada "observações de atenuação" que permitiu o estudo do interior da
Terra em três dimensões, algo "fundamental para compreender a evolução
da composição" do manto, apontaram os autores.A
nova técnica permitiu-lhes "obter uma visão do interior do planeta,
semelhante à que os médicos obtêm do corpo humano através dos raios X".Os
resultados indicaram que, quando atingem estas 'ilhas' interiores do
tamanho de continentes, as ondas abrandam porque a temperatura é mais
elevada.Ao estudar a composição dos
minerais no manto, os investigadores descobriram também que o tamanho
dos grânulos minerais nestas 'ilhas' gigantes é visivelmente maior do
que nas placas tectónicas 'mortas' que as rodeiam."Estes
grânulos minerais não crescem de um dia para o outro, o que só pode
significar uma coisa: são muito maiores, mais rígidos e, por isso, mais
antigos do que os cemitérios de camadas mortas circundantes. Isto indica
que as 'ilhas' não participam no fluxo no manto terrestre", explicou
outra autora, Sujania Talavera-Soza, da mesma universidade."Ao
contrário do que nos ensinam os livros de geografia, o manto também não
pode ser bem misturado. Há menos fluxo no manto terrestre do que
pensamos", acrescentou Talavera-Soza.O
conhecimento do manto terrestre é essencial para compreender a evolução
do planeta e de outros fenómenos à superfície da Terra, como os vulcões e
a formação de montanhas.Para este tipo de
investigação, os sismólogos aproveitam as oscilações provocadas por
fortes sismos que ocorrem a grandes profundidades, como o que ocorreu na
Bolívia em 1994 - 650 quilómetros abaixo da superfície - sem causar
danos ou vítimas, e a descrição matemática da força destas oscilações.