Manifestações em Lisboa e no Porto juntam 80 mil docentes, diz Fenprof

5 de mar. de 2023, 10:29 — Lusa /AO Online

“Para quem achava que os professores estavam cansados e fartos de lutar, bem podem meter a viola no saco. Estão 40 mil professores aqui e outros 40 mil lá no Porto, o que quer dizer que temos a maior manifestação nas ruas”, anunciou Mário Nogueira em frente à Assembleia da República, o destino da manifestação em Lisboa que começou às 15:30 no Rossio.Mário Nogueira criticou ainda o pedido de serviços mínimos para os dois dias de greve regional que decorreram na quinta e sexta-feira, considerando a decisão “intolerável” e garantindo que “a luta não vai parar”.“A luta vai continuar enquanto os professores não forem respeitados”, afirmou, apelando aos docentes para que estejam presentes junto ao ministério no próximo dia 9 de março, quando se realizará a reunião suplementar para negociar um novo regime de recrutamento e colocação de professores.As negociações entre a tutela e os sindicatos sobre um novo modelo de contratação e colocação de professores começaram em setembro, tendo terminado em fevereiro sem acordo.Hoje, Mário Nogueira voltou a lembrar perante milhares de professores algumas das “linhas vermelhas” do documento apresentado pelo Ministério da Educação, como seja a criação de uma espécie de conselho de diretores das escolas com autoridade para colocar docentes a trabalhar em dois agrupamentos.Mas existem outros motivos para os protestos como a recuperação de cerca de seis anos e meio de serviço congelado, que conta como apoio do PCP e do Bloco de Esquerda que hoje voltou a marcar presença na manifestação em Lisboa.Em declarações à Lusa, Jorge Pires, do PCP, apoiou “as justas reivindicações dos milhares de professores e educadores”, lembrando que “trabalharam sempre, todos os dias, com grande afinco e a pensar sobretudo nas nossas crianças”.Para Jorge Pires, o Governo terá “de ceder porque esta é uma luta imparável que não vai terminar enquanto os professores não atingirem o seu objetivo”.Também a deputada bloquista Joana Mortágua sublinhou hoje a “justa luta” dos professores pelo “direito a salários dignos” e o pagamento das despesas de deslocação que permita aos docentes trabalhar em zonas do pais como Lisboa, onde as rendas das casas chegam a ser superiores aos seus ordenados.Em declarações à Lusa, Joana Mortágua lembrou a precariedade, os casos de “professores que pagam para trabalhar” e todos os que “são mal tratados”.“O Governo tem feito uma coisa impensável que é, cá fora, diz que está a estudar a possibilidade de recuperar o tempo de serviço, mas depois, nas reuniões, não há nada”, criticou a deputada do bloco, lembrando que a recuperação dos seis anos e meio do tempo de serviço congelado é “uma condição básica para conseguir negociar com os professores”.Entre os professores que hoje se manifestaram em Lisboa estava Ana Fernandes. A docente de educação visual desde 1996 disse à Lusa sentir-se “roubada pelo atual ministro da Educação”.Vestida de ladrão, com uma placa dizendo “João Costa”, Ana Fernandes explicou que decidiu personificar o ministro que roubou “aos professores o tempo de serviço trabalhado, mas também o direito à greve, o respeito, a paz de espírito e noites de sono”.“João Costa não leu o livro de instruções de ministro”, criticou Ana Fernandes que trabalha há 27 anos e deveria estar no 6.º escalão, mas ainda está no 3.º, depois de anos com a carreira congelada e a ser “ultrapassada por colegas”.Também Susana Morte, de 51 anos, viajou de Olhão para hoje se manifestar em Lisboa. A professora de 1.º ciclo criticou os horários de trabalho, garantindo que, em média, em vez de “35 horas semanais trabalha entre 50 a 60 anos”, devido à burocracia a que os docentes estão obrigados.Com um cartaz ao peito dizendo “Nós não somos pombos para aceitar migalhas. Continuamos em luta”, Susana Morte exigiu também a recuperação do tempo de serviço e criticou a idade de reforma, dando como exemplo colegas “de 51 e 52 anos que já se sentem cansadas em estar todo o dia numa sala de aulas com meninos”.“O tempo é para contar, não é para roubar” foi uma das frases mais gritadas pelos professores que exigem ao Governo que abra um processo negocial para a recuperação dos mais de seis anos em que tiveram as suas carreiras congeladas, durante a Troika.A última manifestação convocada pela plataforma de sindicatos decorreu há pouco menos de um mês, a 11 de fevereiro, e muitos dos motivos do protesto mantêm-se inalterados.