Mais vagas em Medicina não resolve problema do SNS
16 de ago. de 2024, 12:19
— Lusa/AO Online
“Está
mais do que provado que Portugal tem os médicos suficientes, só que não
estão no SNS. Em vez de desviarmos as atenções com medidas de algum
populismo, mas irrealistas para este momento, devemos concentrar-nos no
SNS e na sua capacidade para atrair recursos humanos agora”, disse
Carlos Cortes.À Lusa, em declarações por
telefone, em comentário aos anúncios do primeiro-ministro, Luís
Montenegro, para a área da saúde, o bastonário da OM pediu que não se
empurrem os problemas.“O país, neste
momento, não tem um problema em estudantes ou diplomados em Medicina. O
país tem um problema no SNS. Não queria que, mais uma vez, caíssemos
nesta falácia de fazer uma ligação direta entre o número de estudantes
de Medicina e o número de médicos especialistas no SNS”, disse Carlos
Cortes.Na quarta-feira, numa intervenção
na Festa do Pontal, em Quarteira, distrito de Faro, que marcou a
'rentrée' política do PSD, Luís Montenegro anunciou a criação de mais
vagas para o curso de Medicina, de forma a compensar as aposentações dos
médicos do SNS.Carlos Cortes disse
que “é de saudar o facto de o primeiro-ministro ter colocado a saúde
como um dos temas prioritários do seu discurso”, porque “significa que
está empenhado na saúde e reconhece as dificuldades que o SNS está a
atravessar”, mas mostrou-se “surpreendido com as medidas anunciadas”.“Portugal
tem médicos suficientes. Portugal é, na análise da OCDE [Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Económico], dos países que tem mais
médicos por 1.000 habitantes (…). Parece sempre muito simpático junto da
população dizer que se vai aumentar o número […] mas o que o país
precisa mais não é de mais vagas, é de medidas para atrair médicos”,
reafirmou, resumindo as que considera mais urgentes.“Melhores
condições de trabalho para os médicos, valorizar a carreira dos
médicos, rever as questões remuneratórias com os sindicatos e melhorar a
formação e a investigação para atrair mais médicos”, enumerou.Carlos
Cortes lembrou que nos últimos 25 anos se passou de cinco faculdades de
Medicina para 12, de cerca de 500 estudantes de Medicina para 1.700, e
disse que Portugal tem perto de 2.000 novos diplomados em Medicina todos
os anos contando com os que chegam de fora.Segundo
o bastonário, ainda este ano a Direção-Geral do Ensino Superior fez um
estudo sobre as necessidades de médicos no país e chegou à conclusão que
Portugal necessitava de ter mais 15 a 30 vagas novas nas Faculdades de
Medicina.“A Universidade da Aveiro vai
iniciar [um novo curso] com 40 vagas e depois [nos anos seguintes] com o
dobro ou o triplo dessas vagas”, acrescentou o bastonário.Carlos
Cortes alertou que no ano passado mais de 400 vagas para a
especialidade ficaram por ocupar, um número que, disse, “tem crescido de
ano para ano”, razão pela qual “são necessárias medidas para agora, não
para daqui a 15 anos”.“Este aumento de
vagas e a criação de novas faculdades só vai ter médicos especialistas e
capazes de integrar o SNS daqui a 15 anos. A promessa do
primeiro-ministro não resolve os problemas do SNS de hoje, só empurra o
problema”, reforçou.Outra medida sugerida
por Carlos Cortes, que criticou os “atrasos lamentáveis das ULS
[Unidades Locais de Saúde] nos procedimentos concursais”, é a publicação
das vagas dos hospitais para a especialidade em fevereiro ou março,
antes de os médicos acabarem a especialização.“Os
médicos acabaram a especialidade em abril e em agosto muitos deles nem
foram contactados pelo SNS (…). Os hospitais privados e os do
estrangeiro não esperaram por agosto para aliciarem os médicos a
trabalharem nos seus quadros”, concluiu.