Mais de uma em cada quatro crianças vive em "pobreza alimentar grave"
6 de jun. de 2024, 18:23
— Lusa/AO Online
Isto significa
que mais de 180 milhões de crianças correm o risco de sofrer
consequências graves para a saúde se não tiverem uma alimentação
nutritiva e diversificada, de acordo com um relatório da Unicef.Um
"número chocante" de crianças "sobrevive com uma dieta muito pobre,
consumindo produtos de dois ou menos grupos alimentares", disse Harriet
Torlesse, uma das autoras do relatório, à agência de notícias
France-Presse.De acordo com as
recomendações da Unicef, as crianças pequenas devem consumir diariamente
alimentos de pelo menos cinco dos oito grupos alimentares (leite
materno, cereais, frutas e legumes ricos em vitamina A, carne ou peixe,
ovos, laticínios, leguminosas, outras frutas e legumes).No
entanto, 440 milhões de crianças com menos de 5 anos (ou 66%), a viver
em cerca de uma centena de países de baixo e médio rendimento
analisados, não têm acesso a estes cinco grupos todos os dias, vivendo
assim em situação de “pobreza alimentar”. E destes, cerca de 181 milhões (27%) consomem, no máximo, alimentos de dois grupos.Estas
“crianças que comem apenas dois grupos de alimentos por dia, por
exemplo arroz e um pouco de leite, têm 50% mais probabilidades de sofrer
de formas graves de malnutrição”, como definhamento e emaciação
extrema, que pode levar à morte, alertou a diretora da Unicef, Catherine
Russell, em comunicado. Estas crianças
sobrevivem e crescem, mas “não prosperam. Têm menos sucesso na escola e,
quando adultas, têm mais dificuldade em ganhar a vida, o que mantém um
ciclo de pobreza de geração em geração", explicou Torlesse.“O
cérebro, o coração e o sistema imunitário, que são importantes para o
desenvolvimento e a proteção contra as doenças, dependem das vitaminas,
dos minerais e das proteínas”, insistiu a especialista em nutrição.Esta
grave pobreza alimentar concentra-se em 20 países, com situações
particularmente preocupantes na Somália (63% das crianças com menos de 5
anos afetadas), na República da Guiné (54%), na Guiné-Bissau (53%) e no
Afeganistão (49%).E, embora não existam
dados disponíveis para os países ricos, as crianças de agregados
familiares pobres enfrentam também estas carências nutricionais.O
relatório presta especial atenção à situação na Faixa de Gaza, onde a
ofensiva israelita provocada pelo ataque sem precedentes do movimento
islamita palestiniano Hamas em 07 de outubro, levou ao “colapso dos
sistemas alimentares e de saúde”.A nível
global, constatando apenas “progressos lentos” nos últimos 10 anos na
luta contra a pobreza alimentar, o relatório defendeu a introdução de
mecanismos de proteção social e de ajuda humanitária para os mais
vulneráveis.Mas também uma transformação
do sistema agroalimentar, responsabilizando as bebidas com elevado teor
de açúcar e os pratos industriais ultraprocessados “comercializados de
forma agressiva junto das famílias e que se tornaram a norma para a
alimentação das crianças”.Estes produtos
são frequentemente “baratos, mas também muito calóricos, muito salgados e
gordos. Suprimem a fome, mas não fornecem as vitaminas e os minerais de
que as crianças necessitam", sublinhou Harriet Torlesse.