Mais de um milhão de testes contra hepatite B e C feitos em 2023
25 de jul. de 2024, 10:59
— Lusa/AO Online
“Somos
dos países da Europa que mais testa. Isto são doenças silenciosas,
doenças que as pessoas não sabem que têm e podem ter durante 20/30 anos.
Toda a gente devia fazer os testes de hepatite B, hepatite C e da SIDA
pelo menos uma vez na vida”, disse Rui Tato Marinho.Em
entrevista à Lusa, o diretor do PNHV salientou a importância da
testagem porque permite “identificar pessoas que não sabem que têm a
doença, vacinar, curar e proteger a família e outras pessoas”, uma vez
que estão em causa doenças infecciosas.Esta
é uma das recomendações do Relatório do Programa Nacional para as
Hepatites Virais 2024.O
PNHV é um dos programas de saúde prioritários da Direção-Geral da Saúde
(DGS) e este documento procura caracterizar a atual situação das
hepatites virais em Portugal.Nele estão
descritas as características, clínicas e sociais, e sintetizadas as
principais atividades de vigilância epidemiológica, prevenção,
diagnóstico e tratamento desenvolvidas no ano passado, sendo traçado um
roteiro de ação para 2025.Os dados de
vigilância epidemiológica sobre hepatites A, B (incluindo a Delta), C e E
foram obtidos a partir da plataforma de suporte ao SINAVE (Sistema
Nacional de Vigilância Epidemiológica), sendo salvaguardado que os dados
referentes a 2023 são ainda provisórios.No
documento lê-se que “os testes para o diagnóstico de VHB [vírus da
hepatite B] e VHC [Vírus da hepatite C] prescritos e realizados
anualmente em contexto hospitalar e nos cuidados de saúde primários têm
demonstrado uma tendência globalmente crescente”.Os
autores do relatório acreditam que este aumento seja “provavelmente
fruto da maior atenção dirigida às hepatites virais B e C nos últimos
anos, apoio às populações-chave e grupos vulneráveis, bem como, no
contexto da vigilância de saúde global das pessoas”.Ao
nível dos cuidados de saúde primários, em 2023, foram prescritos e
realizados 289.959 testes de AgHBs (antigénio de superfície do vírus da
hepatite B) e 218.566 testes de anti-VHC (anticorpo contra o vírus da
hepatite C), verificando-se um aumento de 4% e 8%, respetivamente,
quando comparados com 2022.No entanto,
salvaguardam os autores, “estes resultados podem estar subestimados em
termos de intervenção diagnóstica pois, em muitas unidades de saúde, há
possibilidade de realização de testes rápido para VHC [vírus da hepatite
C], não existindo, à data, um procedimento padronizado e validado para a
sua monitorização a nível nacional”.“Ou seja, o aumento é positivo, mas queremos mais”, resumiu, à Lusa, Rui Tato Marinho.O
relatório também aponta que, de acordo com a plataforma Bilhete de
Identidade dos Cuidados de Saúde Primários (BI-CSP), se constatou desde
2021 um crescimento sustentado das hepatites virais, registando-se em
dezembro de 2023 uma proporção de 0,61% na população utilizadora dos
Cuidados de Saúde Primários com o diagnóstico de hepatite viral (55.927
casos).“Verificou-se o registo de 1.661 novos casos em relação a 2022”, lê-se no documento.Encontram-se
mais pessoas do sexo masculino do que do sexo feminino com hepatites
virais como problema ativo, na sua maioria entre os 45 e os 64 anos,
sendo a região de Lisboa e Vale do Tejo a que tem mais utentes.Mas
os autores também alertam que estes dados “poderão não traduzir valores
reais e fidedignos de incidência e prevalência de hepatites virais no
país, na medida em que vários vieses podem ser identificados”.Outra
das recomendações passa pela sensibilização dos clínicos e pelo reforço
da formação das equipas de cuidados de Medicina Geral e Familiar sobre a
importância dos registos, da atualização periódica da Lista de
Problemas e da notificação através da plataforma de suporte ao SINAVE,
mesmo que “se trate de um caso provável”.Rui
Tato Marinho vai mais longe e pede que “a filosofia do PNHV seja
colocada em prática mais ativamente, até porque essa é uma recomendação
da Organização Mundial de Saúde (OMS) que escolheu Portugal, em abril,
para realizar a World Hepatitis Summit 2024, uma reunião que juntou
governos e profissionais de saúde, organizações da sociedade civil,
decisores políticos, académicos e pessoas que vivem ou viveram com
hepatites de mais de 100 países.“A
filosofia do programa há muitos anos é integrar os cuidados
hospitalares, a Medicina Geral e Familiar, os cuidados de saúde
primários, a saúde pública e o mundo social”, disse o diretor, que
lidera este programa há três anos.