Mais de um em cada três estudantes de medicina ponderam emigrar
Hoje 16:40
— Lusa/AO Online
O estudo “Presente e Futuro I - A Visão dos Futuros Médicos”, feito pela Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), mostra que cerca de metade (49,8%) aponta a carga horária, as horas extraordinárias e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal como as mudanças mais urgentes para melhorar a profissão.A valorização salarial foi apontada por 46,1% dos cerca de 700 estudantes das 11 escolas médicas portuguesas ouvidos.Em declarações à Lusa, a presidente da ANEM, Maria Fontão, lembra que as condições de vida atuais transcendem a profissão médica e são essenciais quando se planeiam recursos: “Os futuros profissionais de saúde são também eles jovens e têm as mesmas interpretações que os restantes jovens”.Olhando para os dados, que serão hoje apresentados, Maria Fontão lembra a importância de dar mais incentivos, de diversa índole, para que se consiga atrair médicos para as especialidades com escassez de profissionais.“Na altura de escolher a especialidade, hoje em dia, se não tiverem disponível a especialidade que idealizaram, [os médicos] abdicam da escolha. E isto altera significativamente o paradigma”, explicou.Quanto à possibilidade de emigrar, são 36% os que ponderam essa opção e 29,4% estão indecisos. Só cerca de um terço (34,8%) disse não considerar essa hipótese.Segundo a ANEM, estes dados reforçam a necessidade de olhar para o futuro da profissão médica para além do número de estudantes que ingressam anualmente nos cursos de Medicina, considerando também as condições em que estes profissionais irão trabalhar e as oportunidades de desenvolvimento de carreira. “Ouvir estas expectativas e integrá-las no planeamento dos recursos humanos em Saúde é essencial para garantir que Portugal consegue, não só formar médicos, mas também criar condições para os manter no país e no Serviço Nacional de Saúde”, considera a associação.Os resultados evidenciam ainda preocupações com o reconhecimento profissional e a progressão na carreira, bem como com a carga burocrática, que os estudantes consideram um obstáculo à disponibilidade para a prática clínica e ao contacto com os doentes.Perante uma escolha entre o serviço público ou privado, os estudantes de medicina continuam a ver o SNS como uma opção de carreira, mas “se calhar já não o regime de dedicação plena, ou exclusiva”, admite a presidente da ANEM. “Apesar de ser paradoxal, isto leva-nos a crer que há ainda um sentido de compromisso com o projeto democrático e de serviço público que o SNS continua a prestar nos dias de hoje”, acrescentou.A carga de trabalho, o peso da burocracia, a escassez de tempo de contacto com os doentes e de recursos materiais e tecnológicos foram apontadas como mais acentuadas no SNS do que no setor privado/social. Ainda assim, a maioria dos estudantes afirma pretender trabalhar em regime misto, isto é, dividindo-se entre os setores público e não-público.O estudo identifica também uma associação entre a escola médica frequentada e a região onde os estudantes pretendem exercer a profissão, evidenciando a importância de considerar a distribuição territorial dos futuros profissionais no planeamento dos recursos humanos em Saúde.Maria Fontão admite que a coesão territorial “é um dos maiores problemas” que o planeamento de recursos humanos tem de enfrentar e lembra que é preciso, antes de colocar médicos, dar mais condições às pessoas que vivem no interior.Os dados mostram ainda maior tendência dos estudantes para escolher trabalhar em meio hospitalar, em detrimento dos cuidados primários, o que Maria Fontão interpreta como um resultado do fraco investimento em prevenção, uma área que nunca tem resultados imediatos.“É um investimento que tem de ser feito antes de as pessoas procurarem o SNS” , sublinha a responsável, para quem as Unidades de Saúde Familiar deveriam ter mais autonomia.