Mais de metade das pessoas de etnia cigana diz já ter sofrido discriminação em Portugal
24 de jun. de 2024, 13:25
— Lusa
Realizado
entre janeiro e agosto de 2023, o inquérito hoje publicado pelo
Instituto Nacional de Estatística (INE), no âmbito do Dia Nacional do
Cigano, indica que 51,3% das pessoas que se identificaram como ciganas
já sofreram discriminação, valor muito superior aos 16,1% registados na
população total. “Entre as razões por
detrás dessa discriminação, destaca-se, essencialmente, um conjunto de
fatores que agrega a cor da pele, o território de origem e o grupo
étnico, identificado por 95,0% das pessoas daquela etnia que foram
discriminadas (proporção que é mais do dobro da observada na população
total que foi discriminada, 40,1%)”, refere o relatório do INE sobre o
inquérito. De acordo com o ICOT, cerca de
47.500 pessoas com idades entre os 18 e os 74 anos e a residir há pelo
menos um ano em Portugal, “autoidentificaram-se com o grupo étnico
cigano”. “Mais de quatro quintos (82,8%)
disseram existir discriminação no país e cerca de três quartos (74,3%)
consideraram que a discriminação com base na origem étnica é frequente
ou muito frequente (48,8% na população total). Mais de metade da
população deste grupo étnico (52,7%) já testemunhou situações de
discriminação (35,9% na população total)”, adianta o documento.Na
origem da discriminação, segundo o ICOT, é apontado “principalmente o
conjunto de fatores já identificados na discriminação vivida, ou seja,
cor da pele, território de origem e grupo étnico (91,2%), bem como
fatores sociodemográficos, como a idade, sexo, escolaridade e situação
económica (70,6%)”.Também mais de metade
da população de etnia cigana (52,7%) diz ter testemunhado situações de
discriminação, mais do que os 35,9% assinalados na população total.O
inquérito revela ainda que as pessoas que se identificaram como ciganas
apresentavam “uma maior proporção de mulheres (56,6%, contra 51,7%, na
população total)”, registando uma diferença de 13,2 pontos percentuais
entre sexos naquele grupo étnico.Também a
população do grupo étnico cigano apresentava uma estrutura etária mais
jovem (35% tinham idades entre os 18 e os 34 anos), do que a população
total (25%), mas menos escolarizada.O ICOT avança ainda que nove em cada dez pessoas de etnia cigana não tinham trajetórias imigratórias pessoais e familiares.“Observa-se
que 88,1% das pessoas que se identificaram como ciganas não têm
qualquer ‘background’ imigratório, isto é, são pessoas nascidas em
Portugal e cujos pais e avós nasceram também em Portugal, numa proporção
superior à observada na população total (81,5%)”, salienta.O
inquérito mostra que “a quase generalidade da população de etnia cigana
(95,3%) nasceu em Portugal, o que compara com 87,5% de todos os
residentes no país, tendo também 96,7% nacionalidade portuguesa (95,2%
para a população total), a qual foi obtida maioritariamente por nascença
(95,1%, o que compara com 89,9% para a população total)”.As
pessoas de etnia cigana privilegiam mais os espaços de maior
proximidade, como o bairro (57,7%), vila ou cidade (63,2%), ou a região
onde vivem (66,3%), por comparação com a população total, segundo o
inquérito.No mercado de trabalho, a
população de etnia cigana tinha uma menor proporção de ativos (61,3%,
para 70,8% na população total), posicionando-se maioritariamente no
primeiro quintil da distribuição de rendimentos, ou seja, nos 20% da
população com rendimentos mais baixos (72,6%).As
pessoas de etnia cigana avaliaram genericamente a sua saúde como muito
boa ou boa (62,0%), embora assinalando uma maior proporção de doenças
crónicas.Este grupo populacional também
apresentava valores muito abaixo da média nacional na propriedade (30,6%
contra 70,8% na população total) e conforto térmico da habitação (46,8%
conttra 72,3%), bem como no acesso à internet (74,2% contra 91,8%) e a
automóvel (55,1% contra 75,6%).O ICOT foi
realizado em todo o território nacional com uma amostra de 35.035
unidades de alojamento, constituindo a maior amostra de inquéritos às
famílias realizados pelo INE. Foi entrevistada apenas uma pessoa por
alojamento, selecionada pelo método do último aniversário no alojamento,
tendo sido obtidas 21.608 entrevistas completas.