Mais de 100 episódios de violência mancharam os primeiros anos da Autonomia

Hoje 09:53 — Paula Gouveia

Meio século passou, mas os episódios de violência política que mancharam os primeiros anos da Autonomia ainda são um incómodo.Teófilo Braga e Roberto Rodrigues chamaram-lhe os “Anos de Chumbo”. Com o objetivo de trazer objetividade a um período controverso, recolheram informação nos jornais da época e trinta depoimentos de protagonistas de então. Foram, contudo, surpreendidos pelo silêncio e pela resistência em recuperar estas memórias por parte de algumas personalidades que procuraram ouvir.No livro que resultou desta investigação - “Anos de chumbo nos Açores - Violência Política, Separatismo e Terrorismo (1974 -1982)” - admitem que não conseguiram abranger todas as fontes escritas, nem todos os protagonistas, e que, para alguns dos que acederam contar as suas histórias os pormenores das vivências já se haviam perdido com a idade avançada, mas consideram que os dados reunidos são “uma amostra significativa do clima de medo e de terror vivido nos Açores durante esses anos”.Mais de 100 ocorrências, a maioria na ilha de São Miguel, foram identificadas na pesquisa feita. E há registo ainda de pelo menos 38 atentados bombistas, na maior parte dos casos com engenhos artesanais de baixa potência, e que raramente foram reivindicados, mas que “eram comummente atribuídos aos independentistas da FLA”.“Ameaças, perseguições, agressões, mas também engenhos explosivos de maior ou menor significado, bem como outros atos de manifesta violência, chegaram ao ponto de ter levado várias dezenas de cidadãos notáveis a abandonar abruptamente e aterrorizados as suas casas, as suas famílias e as suas vidas no arquipélago, sobretudo rumo a Lisboa”, referem os autores.Muitas das vítimas não encontraram nas autoridades civis e militares a proteção de que precisavam. Para Teófilo Braga e Roberto Rodrigues as autoridades de então “pouco ou nada fizeram para as proteger, tendo mesmo em alguns casos sido coniventes com os agressores que, à luz do dia, não se coibiam de dar largas ao despudor das suas condutas”.Como se relata no livro, “eram recorrentes os boicotes à atividade democrática, como comícios políticos, sessões de esclarecimento, colagem de cartazes, bem como assaltos ou ataques à bomba às sedes ou a militantes de partidos políticos de esquerda e até a instalações militares”, tendo-se registado também “situações de fogo posto ou outros atos de vandalismo a veículos de civis e militares e, por último, por ironia do destino, até mesmo a apoiantes iniciais do separatismo que, mais tarde e oportunisticamente, abandonaram ou esfriaram a sua colaboração com a causa”.São dados exemplos de alvos: o comício do PS no Coliseu Micaelense, onde estava Mário Soares; a sede do PCP, na Horta; a casa do dirigente da UDP, na Terceira, Milton Sarmento; a casa do professor universitário Carlos Mota Soares, nas Capelas; a casa do antigo diretor do Açoriano Oriental Gustavo Moura e as instalações de uma empresa de que era sócio; entre muitos outros.Do ponto de vista dos autores, “todas as ocorrências registadas indiciam que, nos Açores, existiu não apenas violência política, geralmente associada a períodos de transição de regimes, mas também atividades que poderão ser classificadas como terroristas”.E o facto da maioria dos atos de violência se terem concentrado nos anos de 1977 (26 ocorrências), 1975 (24) e 1976 (22) mostram que é “falsa a velha narrativa de que os mesmos se enquadraram na luta contra o chamado ‘perigo comunista’”, uma vez que são posteriores ao golpe de 25 de novembro de 1975, “momento a partir do qual quaisquer receios de que o país pudesse rumar nesse sentido deixaram de ter qualquer justificação”. Sendo certo que “muitos dos mais significativos atos de violência ocorreram, nos Açores, depois da eleição da primeira Assembleia Regional dos Açores, a 27 de junho de 1976 ou mesmo depois da tomada de posse do Primeiro Governo da Região Autónoma dos Açores, a 8 de setembro de 1976”, salientam.E há outra ideia que é refutada neste livro: os autores consideram que “à luz dos factos conhecidos” não é defensável que “sem a existência dos movimentos independentistas e dos seus excessos as autonomias político ‑administrativas previstas na Constituição jamais teriam existido, pois graças a eles foi possível atemorizar, e depois vergar, os deputados constituintes a esse desiderato”.Teófilo Braga e Roberto Rodrigues esperam que este livro que é lançado amanhã, às 18h00, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional da Ponta Delgada, seja um contributo para outros trabalhos. “É importante que este nosso trabalho seja o princípio, um estímulo para novos trabalhos com o mesmo objeto, pois temos consciência que esta não é a história completa”, diz Roberto Rodrigues. “Mais de 50 anos depois, a história não volta atrás; ou pelo menos não volta com as mesmas pessoas, por isso devia-se falar à vontade, para que esta história não fique por contar”, diz Teófilo Braga.