Mais de 10 400 pessoas morreram este ano a tentar chegar a Espanha
Migrações
26 de dez. de 2024, 18:06
— Lusa/AO Online
Este é um número recorde desde
que esta organização não governamental (ONG) começou a investigar os
desaparecimentos de migrantes no mar a caminho de Espanha. Segundo
a organização, o número reflete um “notável aumento de mortes nos
últimos dois anos”, já que em 2023 os 6 618 óbitos foram quase o triplo
das mortes registadas no ano anterior.Relativamente
a 2024, a Caminando Fronteras destaca que, do total de pessoas que
perderam a vida, 421 eram mulheres e 1 538 crianças ou adolescentes. A
rota atlântica para as ilhas Canárias “continua a ser a mais letal a
nível mundial”, com 9 757 vítimas, ou seja, 93% do total.As restantes mortes ocorreram na rota da Argélia (517), no Estreito (110) e na rota de Alborán (72). O
relatório “Monitorização do Direito à Vida 2024”, que recolheu
informação até 15 de dezembro e detalhou 293 tragédias ocorridas nas
diferentes rotas migratórias, refere ainda que 131 barcos desapareceram
sem deixar rasto, com todos os imigrantes que tinham a bordo.Destaca-se
o “aumento assinalável” este ano das saídas da Mauritânia, país que “se
consolidou como o principal ponto de passagem migratória” para as
Canárias. Nesta rota registaram-se 6 829 mortes.Além
disso, a rota da Argélia para as ilhas Baleares é também considerada
uma das "mais perigosas" pela sua extensão e pela dificuldade da viagem,
como também é o caso da rota do Atlântico, que termina na ilha canária
de El Ferro.Abril foi o mês que registou mais mortes, com 1 284, seguido dos meses de maio (1 103) e fevereiro (1 093).As 10 457 mortes contabilizadas pela Caminando Fronteras referem-se a cidadãos de 28 nacionalidades diferentes.A
ONG analisa ainda as causas do aumento dos naufrágios, apontando a
omissão do dever de prestar auxílio. Neste sentido, garante que “a falta
de ativação atempada dos protocolos de resgate e a escassez de recursos
nas operações de resgate têm aumentado as mortes”.O
controlo da imigração, sublinha, tem tido prioridade sobre o direito à
vida, uma vez que as políticas nesta área se centram em impedir a
chegada de migrantes, “mesmo à custa de vidas humanas”.Outra
das causas apontadas pela organização é a “externalização das
fronteiras”: “A responsabilidade pelo resgate é transferida para países
com recursos limitados, piorando a capacidade de resposta nestas
emergências”, indica no relatório.Muitos resgates, acrescenta, “não foram acionados a tempo”, mesmo quando a localização das embarcações em risco era conhecida. “A
falta de coordenação internacional e os atrasos na ajuda foram fatores
determinantes para estes números devastadores”, sublinha.A
Caminando Fronteras acredita ainda que a “criminalização e
estigmatização” das organizações sociais e familiares que alertam para
as pessoas em risco afeta a eficácia das operações de resgate.Perante
a situação traçada, Helena Maleno, coordenadora da investigação, alerta
para a “profunda falha” dos sistemas de salvamento e proteção e apela a
que “se dê prioridade à proteção do direito à vida, que se reforcem as
operações de busca e salvamento e que seja garantida justiça às vítimas e
às suas famílias”.O relatório destaca a
presença de mulheres nas rotas migratórias, com maior percentagem nas
travessias do Atlântico, especialmente nas rotas entre Agadir e Dakhla
(Marrocos).Estas mulheres,
maioritariamente em trânsito, “enfrentam violência, discriminação,
racismo, deportações e violência sexual”, refere o documento, que
especifica que muitas viajam com crianças nascidas durante a viagem e
sobrevivem em condições extremas através da mendicidade, da prostituição
e de empregos precários, o que as torna mais vulneráveis ao
recrutamento por redes de tráfico.