Mais de 1.100 médicos optaram por não tirar especialidade nos últimos três anos
Hoje 10:56
— Lusa/AO Online
“O que está a
acontecer com as vagas é que, de ano para ano, há muita gente que não as
escolhe e esses médicos são necessários para o país. O Serviço Nacional
de Saúde (SNS) precisa de médicos especialistas que se integrem nas
equipas e com contratos de trabalho com vínculo estável”, alertou o
bastonário da Ordem dos Médicos (OM) em declarações à Lusa.Segundo
dados da ordem, 407 médicos decidiram não ingressar na formação
especializada em 2023, número que baixou para os 307 em 2024, mas que
voltou a aumentar para os 469 em 2025, num total de 1.183 neste período.Um
inquérito divulgado em março pela Administração Central do Sistema de
Saúde (ACSS) concluiu que dois em cada três médicos que optaram por não
entrar na formação especializada no último ano fizeram-no por não ter
conseguido entrar na especialidade que pretendiam.O
estudo indica igualmente que o facto de não conseguirem ficar na
unidade de saúde que desejavam foi outro dos fatores que mais pesou na
decisão, enquanto as razões económicas, como a remuneração ou os custos
associados à deslocação, assumiram menor expressão relativa.A
OM constitui em 2025 um grupo de trabalho para perceber as causas que
levam os médicos a não ingressarem na formação necessária para obterem o
título de especialista, tendo ainda acordado, recentemente, com a ACSS a
realização de um estudo mais aprofundado que permita avançar com
soluções concretas.“Queremos apresentar um
documento consistente e robusto ao Ministério da Saúde para resolver
esta matéria que se agrava de ano para ano”, referiu Carlos Cortes, para
quem atualmente os novos médicos têm uma “postura em relação à escolha
da especialidade que é diferente da que acontecia há 10 ou 20 anos”.Segundo
o responsável da ordem, a nova geração de médicos tem uma “maior
capacidade de mobilidade e de liberdade de definir o seu próprio
caminho”, estando ciente que pode tirar uma especialidade, mas também
trabalhar como prestador de serviços, emigrar e fazer a sua
especialização noutro país e até mudar de atividade profissional.Carlos
Cortes realçou também que a perceção baseada em alguns dados, que ainda
carecem de maior atenção, é que muitos dos motivos que levam os médicos
a não escolherem uma vaga de especialidade são os mesmos que levam a
que também não escolham o SNS para a sua carreira.“As
pessoas não sentem essa atração [pelo SNS] e sentem que, em
determinados hospitais e serviços, não vão ter condições adequadas para a
sua formação e para, depois, desenvolverem a sua atividade como
especialistas”, alegou.Aplicado a 507
médicos, o inquérito foi respondido por metade (254). Destes, mais de
80% manifestou intenção de repetir a Prova Nacional de Acesso para
melhorarem a classificação e tentar conseguir colocação na especialidade
pretendida, adiando assim o início da formação especializada.“A
análise realizada evidencia que a decisão de não ingresso imediatamente
para a formação especializada resulta sobretudo de condicionantes
estruturais do modelo de acesso, em particular da impossibilidade de
obter colocação na especialidade pretendida, mais do que de uma
desvalorização da formação especializada”, salientou a ACSS.O
estudo concluiu ainda que as descontinuidades no acesso à
especialização comprometem a previsibilidade do processo formativo,
atrasam a renovação geracional da classe e podem agravar desigualdades
na distribuição de especialistas, com impacto direto na capacidade de
resposta assistencial aos utentes dos sistemas públicos.