Mais 50 produtores podem trocar produção de leite pela carne
Hoje 10:34
— Rui Jorge Cabral
Mais 50 produtores das ilhas de São Miguel, Terceira e Graciosa poderão este ano reconverter a produção de leite para carne, caso o preço do leite pago pela indústria volte a baixar nos Açores, seguindo a tendência já iniciada no continente. Estes 50 produtores iriam juntar-se aos outros 130 que já trocaram a produção de leite pela de carne desde 2020, quando se iniciaram os programas de reconversão dos apoios do POSEI do leite para a carne, sem que isso implique custos para a Região. E os 130 produtores que já deixaram a produção de leite representam mais de 30 milhões de litros que nos últimos cinco anos a indústria de laticínios perdeu. Em declarações ao Açoriano Oriental, o presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, lança o alerta: “é preciso que a indústria perceba que a produção tem alternativas e tem outras ferramentas para que os produtores possam continuar a ser agricultores sem serem produtores de leite”. E Jorge Rita salienta que quem fez, desde 2020, a reconversão da produção de leite para a produção de carne não voltou atrás. Até porque a produção de carne - embora possa ser menos rentável que a de leite nos bons anos de produção - tem menos custos e sobretudo implica um menor trabalho para os produtores, que há muito se queixam da falta de mão-de-obra para a agricultura nos Açores. Além disso, a procura por carne de vaca no mercado europeu e asiático tem subido, o que tem feito aumentar o preço da carne de uma forma mais estável do que o preço do leite. Conforme explica Jorge Rita, a reconversão da produção de leite em carne está pronta para abrir uma nova fase de candidaturas este ano, se o preço do leite voltar a baixar e a instabilidade voltar à produção leiteira. Essa reconversão, aceite pela Comissão Europeia, transfere os apoios do POSEI que são dados à produção de leite para direitos à vaca aleitante, que apoiam a produção de carne e que neste momento são de 300 euros anuais por vaca. Quer isto dizer que um produtor que receba atualmente 10 mil euros anuais do POSEI pela produção de leite, pode dividir esse valor por 300, convertendo-o em direitos à vaca aleitante, tendo depois dois anos para concretizar a conversão da exploração em vacas geneticamente vocacionadas para a produção de carne ou cruzadas. E o descontentamento no setor da produção de leite este ano não se restringe apenas à questão do preço por litro pago pela indústria. Conforme alerta Jorge Rita, há também produtores que, devido ao mau tempo, estão com grandes dificuldades em produzir alimentos para as vacas, a que se junta o já referido fator da falta de mão-de-obra e ainda a dificuldade de muitos produtores que se aproximam da idade da reforma em garantirem junto da família a continuidade das suas explorações.Por isso, alerta o presidente da Federação Agrícola dos Açores, “a indústria sabe que, neste momento, há muitos produtores desconfortáveis e, se baixar o preço, vai perder leite e vai perder produtores, que serão irrecuperáveis”.E Jorge Rita lembra que “estamos a falar de muitos produtores que eram excelentes produtores na área do leite”, mas que agora na carne continuam a ser “muito bons”, porque as exigências para ter uma produção de carne não são as mesmas de uma produção de leite.Conforme afirma Jorge Rita, “nós temos que criar mecanismos de defesa para os produtores”, embora garanta que “não queremos menos produtores agrícolas na Região, contudo, não podemos manter produtores de forma desconfortável e a perder dinheiro em algumas áreas de produção agrícola” como tem sido o caso do leite. E se durante muitos anos a reconversão para a produção de carne não era viável “hoje, atendendo a que o mercado da carne está numa situação favorável, a apetência é cada vez maior”, afirma o presidente da Federação Agrícola dos Açores. Jorge Rita lamenta igualmente que “neste momento, o que temos é uma situação de desconforto em relação ao setor leiteiro, derivado da insegurança e da desconfiança que existe em relação ao preço, porque à mínima situação anormal nos mercados, as indústrias começam logo a assustar os produtores por e-mail, por carta ou por mensagem”. Por isso, Jorge Rita conclui que a reconversão do leite para a carne por parte de muitos produtores até pode não ser apenas uma questão de rendimento financeiro, uma vez que “há um rendimento que nós nunca contabilizamos, que é o desgaste emocional” e este representa também “um prejuízo” para o agricultor, numa altura em que no setor da carne existe maior previsibilidade.