Maioria dos cuidadores informais precisam de apoio psicológico urgente
31 de jan. de 2023, 15:00
— Lusa/AO Online
Os dados deste inquérito
nacional, que serão apresentados em Lisboa, revelam que 83,3% dos
cuidadores informais inquiridos admitem ter-se sentido em estado de
‘burnout’ e que 77,9% reconhece que precisa de apoio psicológico, mas
menos de metade destes procura e usufrui desta ajuda.“Os
dados dizem-nos isso: eles precisam, eles querem e já tentaram ter
apoio psicológico”, disse à Lusa a psicóloga Ana Carina Valente,
responsável pelo estudo e docente do ISPA - Instituto Universitário de
Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, sublinhando que os resultados
mostram que "existe sofrimento psicológico nos cuidadores”.O
inquérito nacional, realizado pela Merck, com o apoio do Movimento
Cuidar dos Cuidadores Informais, mostra igualmente que 78,5% consideram
que o seu estado de saúde mental influencia o desempenho do seu papel de
cuidador informal e cerca de metade diz não ser capaz de rir e ver o
lado positivo como antes.Apesar de 77,9%
reconhecerem a necessidade de apoio psicológico, menos de metade destes
procuram e usufruem deste apoio: “A resposta do apoio psicológico em
Portugal, por exemplo, do Serviço Nacional de Saúde, não é uma resposta
eficaz”, considera Ana Carina Valente.“Não
existem, de facto, apoios públicos que deem resposta a todas as pessoas
que precisam de apoio psicológico. (…) Mesmo as pessoas que sentem esta
necessidade e procuram esta ajuda, nem todos a conseguem, porque (…)
têm que recorrer a serviços privados, onde têm que pagar uma consulta”,
lembra a responsável, sublinhando que mais de metade dos cuidadores
estão desempregados.“Nós sabemos que mais
de metade dos cuidadores estão em situação de desemprego, com situações
muito vulneráveis sob o ponto de vista da sua funcionalidade e do
cuidado da família e dos familiares e, portanto, nem sempre o dinheiro
sobra”, explica.Para ajudar a responder a
este problema, a responsável defende a criação de linhas de apoio,
gratuitas, onde os cuidadores pudessem ter esta ajuda, sem terem de sair
de casa, onde cuidam da pessoa que têm à sua responsabilidade.“Os
próprios cuidadores reconhecem a necessidade”, recorda a especialista,
considerando que o aparecimento destas linhas de apoio seria ”uma
resposta muito importante e muito eficaz".“Dá
a oportunidade de cuidar de mim sem ter que gastar um dinheiro que
muitas vezes eu não tenho”, acrescenta a responsável, insistindo que
“nem sempre os centros de saúde e os hospitais dão uma resposta eficaz”.Sobre
a eficácia do acompanhamento à distância, Ana Carina Valente diz que
“todos os estudos indicam que é eficaz” e que, neste caso, muitas vezes
os cuidadores não se podem mesmo ausentar de casa.“Assim,
conseguimos minimizar as consequências de ser cuidador e também
ajudá-los a diminuir estes resultados, tão expressivos nesta população”,
acrescentou.Sobre como operacionalizar a
ajuda, responde: “Ou com o Serviço Nacional de Saúde ou, por exemplo,
algumas associações podiam ter apoio para contratarem psicólogos, para
fazer este trabalho”.“Nós temos algumas
linhas de apoio em Portugal. Esta seria mais uma, específica para os
cuidadores, onde os psicólogos receberiam formação para trabalhar nesta
área”, afirmou, sublinhando: “Não há saúde sem saúde mental”.Dando
o exemplo da empresa que avançou com o estudo (Merk), que investiu
neste estudo, a psicóloga defende que as empresas privadas também podiam
investir nesta matéria.O inquérito
conclui que a maioria destes cuidadores se vê numa situação de
vulnerabilidade – psicológica, emocional e social – e mostra que mais de
seis em cada 10 (63,7%) sentem dificuldade em estar à vontade ou
descontraídos.Os dados mostram igualmente que 45,7% se sentem muitas vezes ansiosos/contraídos e que 37,4% perderam a vontade de cuidar de si.“Eles
pedem, gritam por esta necessidade. Penso que todos nós temos que olhar
para estes resultados e fazer alguma coisa. Essas pessoas estão a pedir
ajuda e precisam de ajuda”, insiste a responsável.O
estudo abrangeu mais de 1.100 cuidadores, que responderam aos
inquéritos entre 03 de novembro de 2022 e 04 de janeiro de 2023. Com
base nas estimativas do Instituto de Segurança Social, haverá em
Portugal cerca de 1,1 milhões de cuidadores informais.