Maioria dos alunos carenciados não usou contingente especial para entrar no ensino superior
25 de jan. de 2025, 09:00
— Lusa
Uma equipa
de investigadores avaliou o impacto da política responsável por reservar
2% de vagas no ensino superior público para os mais carenciados e
concluiu que em 2023 apenas 43% dos alunos elegíveis (escalão A do Apoio
Social Escolar) concorreu através do novo contingente.O
estudo mostra ainda que quase metade dos colocados (41%) não teria
ficado no curso que escolheu se não tivesse ativado este apoio, salienta
Pedro Luís Silva, coordenador do estudo divulgado hoje pelo Edulog, da
Fundação Belmiro de Azevedo.Entre os que
se candidataram através do contingente especial, 93% conseguiram vaga,
uma percentagem que desce para 78% quando se analisa os restantes
candidatos elegíveis que não usaram a nova benesse.O
estudo mostra que o programa funciona, mas "lança um aparente
quebra-cabeças. Porque é que os alunos não usaram o contingente?”,
questionou Pedro Luís Silva.Os
investigadores encontraram três possíveis obstáculos:
desconhecimento sobre o novo programa, restrições financeiras das
famílias e desajustamento entre a oferta de programas no ensino superior
e os interesses dos estudantes.Os mais
pobres têm “grandes dificuldades em deslocar-se porque há um grande
aumento nas despesas e as bolsas de estudo são relativamente modestas”,
lembrou Alberto Amaral, membro do Conselho Consultivo do
Edulog, defendendo um reforço dos apoios sociais.Existem
muito mais estudantes carenciados a permanecer no mesmo distrito quando
transitam para o ensino superior quando comparados com os que têm mais
rendimentos, sendo que "em alguns distritos, a percentagem é três a seis
vezes superior”, lê-se no estudo que mostra que este é um problema que
se sente mais entre os alunos de Portalegre, Guarda, Bragança, Viana do
Castelo, Leiria e Santarém.Os elevados
custos do alojamento continuam a ser um dos principais motivos que
impedem de estudar longe de casa: Os quartos estão cada vez mais caros e
em muitos casos os alunos não conseguem que o senhorio passe o recibo
exigido para ter apoio estatal, lembrou Alberto Amaral.A
ideia é corroborada por Pedro Luis Silva que lembra que a existência de
um contingente “por si só, não faz com que os alunos passem a
candidatar a programas seletivos”, defendendo um reforço das ajudas
financeiras, nomeadamente para despesas de deslocação e alojamento.Outra
das possíveis razões para muitos alunos não terem usado o contingente
pode ser o desconhecimento do programa e, por isso, o Edulog recomenda
que haja mais divulgação, com vídeos tutoriais para professores e
estudantes e “informações mais claras no site da Direção-Geral do Ensino
Superior”.As famílias e alunos da região
da Grande Lisboa foram as que menos recorreram ao contingente
prioritário, contrastando com as regiões autónomas, onde houve uma
participação notavelmente mais elevada.Para
Alberto Amaral, este facto poderá estar relacionado com a maior
familiaridade na utilização de contingentes prioritários, uma vez que as
escolas das ilhas estão mais habituadas a usar os diferentes
contingentes que existem.A publicação das notas mínimas de entrada para todos os contingentes é outra das propostas dos investigadores.“Seria
muito importante publicar as notas mínimas de entrada não apenas do
regime geral de acesso, mas também deste contingente prioritário e de
outros. Se calhar os alunos não se candidatam a determinado curso,
porque podem pensar que não conseguem entrar em determinado curso, mas
com a nota do contingente do ano anterior isso poderia criar um
incentivo”, defendeu o especialista.O
coordenador lembrou ainda que o atual estudo se focou na questão do
acesso, mas que será preciso também avaliar o impacto da medida no
futuro destes jovens, nomeadamente no ensino superior e no mercado de
trabalho.