Maioria dos 2 mil jovens entre 15 e 19 anos recorreram ao psicólogo por ideação suicida
Hoje 09:17
— Ana Carvalho Melo
Os jovens entre os 15 e os 19 anos tornaram-se o grupo que mais recorre ao Serviço de Psicologia da USISM, um fenómeno que Isabel Neves garante nunca ter existido antes da pandemia e que considera estar ligado sobretudo a ideação suicida e automutilação.“Quem nos procura mais são os jovens dos 15 aos 19 anos, uma realidade que nunca tivemos no passado. É recente, é do pós-pandemia”, afirmou Isabel Neves, coordenadora do Serviço de Psicologia da USISM, durante as I Jornadas de Psicologia da Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel. Segundo a responsável, entre janeiro de 2025 e 15 de julho deste ano foram realizados 1.964 contactos neste escalão, sendo que a maioria destes jovens apresenta ideação suicida, com várias tentativas e comportamentos autolesivos muito graves.Num painel dedicado ao tema “Psicologia para todos: Promoção da saúde, prevenção da doença”, Isabel Neves destacou que, entre os 10 e os 14 anos, o serviço registou 1458 contactos entre 1 de janeiro de 2025 e 15 de julho de 2026.Nos adultos, a procura mantém-se elevada, mas, segundo a coordenadora, “dentro do padrão normal”. Os escalões dos 40 aos 54 anos registam valores próximos dos verificados nos mais jovens: 1.674 contactos entre os 40 e os 44 anos, 1.794 entre os 45 e os 49 e 1.699 entre os 50 e os 54. Depois dos 55 anos, a procura desce de forma gradual, de 1.552 contactos (55–59 anos) para 45 nos 85–89 anos.Os utentes chegam à consulta de Psicologia através de referenciações internas (médicos de família, enfermeiros, psicólogos da Saúde Escolar) ou externas, tendo Isabel Neves explicado que “mais de 90% dos nossos casos são casos graves”, caracterizados por ideação ou planos de suicídio, tentativas prévias e comportamentos autolesivos graves.Na sua intervenção, a coordenadora do Serviço de Psicologia da USISM revelou que a instituição conta atualmente com 12 psicólogos efetivos, três psicólogos juniores e seis estagiários académicos em Psicologia.Estes profissionais distribuem-se da seguinte forma pela ilha: seis em Ponta Delgada, dois na Ribeira Grande, um na Lagoa, um em Vila Franca do Campo, um na Povoação e um no Nordeste.A coordenadora do Serviço de Psicologia da USISM, Isabel Costa Neves, admite que há unidades de saúde que ainda não cumprem o rácio recomendado. “O rácio de psicólogos devia ser de um para 5.000 e, na verdade, há ainda centros de saúde cujos psicólogos ainda não [atingem esse valor]”, afirmou.Isabel Neves referiu ainda que o Serviço de Psicologia da USISM trabalha em outras quatro áreas de intervenção, começando por destacar o grupo de luto, que arrancou no ano passado no Centro de Saúde da Ribeira Grande e é conduzido por Patrícia Santos.Referiu também a consulta ao domicílio, para pessoas sem capacidade física de se deslocarem, explicando que pode ser pedida por profissionais de saúde ou por familiares, através do administrativo.Mencionou ainda a intervenção na depressão perinatal, que acompanha grávidas, com articulação entre serviços. A responsável referiu que já foram atendidas 108 pessoas e revelou que muitas têm depressão grave e ideação suicida.Outra das áreas de ação é a intervenção em crise, na qual os psicólogos são acionados a qualquer hora após acontecimentos traumáticos na comunidade, em geral suicídios. Segundo Isabel Neves, em 2026, até setembro, o serviço de Psicologia já interveio em 11 situações de crise, dos quais 10 se relacionaram com suicídio e uma com uma situação de caos. Durante o ano passado, a equipa respondeu a 17 situações: seis devido a suicídio, seis a caos, quatro a pedido de uma Unidade Básica de Urgência e uma do Serviço de Atendimento Urgente.A terminar a sua intervenção, a coordenadora traçou as perspetivas para o futuro do serviço, em torno de eixos prioritários: a continuidade dos cuidados de saúde mental; a implementação de teleconsultas, para monitorização à distância e ultrapassagem de barreiras geográficas e socioeconómicas; a promoção da literacia em saúde mental junto da comunidade e em ambiente escolar; e o foco na prevenção junto de faixas etárias mais jovens, com reforço das intervenções em grupo.Jornadas de Psicologia debatem saúde mentalAs primeiras Jornadas de Psicologia da Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel (USISM) funcionam como uma reunião de trabalho científica para debater e atualizar práticas na área da saúde mental.“A realização deste evento científico tem como propósito discutir práticas. (...) Nós consideramos que este tipo de eventos, mais do que um congresso, é efetivamente uma reunião de trabalho, é um evento científico, onde nos juntamos para tentarmos, a partir daqui, implementar estratégias que deem melhor resposta às necessidades e, neste caso em particular, às necessidades de saúde mental”, afirmou Sandra Silva, presidente do conselho de administração da USISM, entidade organizadora das I Jornadas de Psicologia.Questionada sobre o aumento de comportamentos e pensamentos suicidas entre os jovens da Região, Sandra Silva recordou que, em colaboração com o Governo Regional, está a ser implementado o programa Mais Contigo em várias escolas da ilha de São Miguel.Esta iniciativa capacita toda a comunidade escolar para identificar vulnerabilidades e apoiar os adolescentes de forma preventiva. “O propósito é, junto com a equipa de saúde escolar e com os professores, os assistentes operacionais, ou seja, os profissionais da escola e a Psicologia, formarmos os profissionais para, junto com os jovens, os capacitar em termos de ferramentas para que eles próprios consigam identificar as suas vulnerabilidades (...) O mais importante é trabalhar com os jovens, é capacitar os jovens e as famílias para eles próprios perceberem a sua vulnerabilidade”, explicou.Por fim, Sandra Silva sublinhou a importância de tratar a saúde mental como uma patologia crónica, incentivando os cidadãos a procurarem ajuda nos cuidados de saúde primários caso não consigam aceder de imediato a especialistas.Presente na sessão de abertura deste evento, que começou ontem no Teatro Ribeiragrandense, o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande enfatizou a necessidade de combater o estigma associado às questões psicológicas, integrando-as firmemente no conceito de saúde pública.“Falar de Psicologia é necessariamente falar de pessoas, é falar de bem-estar, de relações, de emoções, de capacidade de adaptação e, acima de tudo, falar de saúde. Durante demasiado tempo, a saúde mental foi encarada como uma dimensão secundária da saúde. Sabemos que não é assim: não existe saúde plena sem saúde mental, e essa é uma realidade”, afirmou.Neste contexto, Jaime Vieira anunciou algumas iniciativas que o executivo municipal está a implementar, como a Unidade Municipal de Prevenção e Combate aos Comportamentos Aditivos e Dependências da Ribeira Grande, através da qual pretende colocar os serviços de Psicologia na linha de frente, para prestar auxílio direto àqueles que enfrentam problemas de dependência e aos seus familiares.Este projeto articula-se com a criação de um gabinete de apoio psicológico vocacionado para ir ao encontro dos cidadãos mais isolados e das populações mais vulneráveis, como a população idosa.A terminar, expressou profundo agradecimento aos psicólogos pelo seu trabalho diário, incentivando o desenvolvimento de abordagens interdisciplinares para enfrentar os atuais desafios sociais.