'Magriços’ recuperaram o respeito para um Portugal “ostracizado”
Mundial2022
10 de nov. de 2022, 13:00
— Marco Oliva/Lusa/AO Online
“Conseguimos
um brilharete, numa altura em que o país estava ostracizado,
marginalizado no mundo inteiro, por causa da guerra de África. Não era
um país que criasse simpatia nessa altura. E nós fomos pôr Portugal no
mapa com alguma simpatia, com muita admiração. É impagável. Tenho o
privilégio de ter feito parte dessa geração”, afirmou o antigo
internacional português, em entrevista à agência Lusa.António
Simões foi um dos 22 jogadores liderados pelo selecionador Otto Glória
na primeira participação da equipa das ‘quinas’ numa grande competição
internacional. Uma equipa eternizada sob o nome ‘magriços’ e que levou
Portugal a um - até hoje – irrepetível terceiro lugar num Mundial.“Infelizmente,
ninguém conseguiu fazer igual até hoje. Corresponde a uma geração que,
sem ser organizada, é uma geração espontânea, que contou com a preciosa
ajuda das ex-colónias, com os Eusébios, os Colunas, os Vicentes, os
Hilários”, recordou o antigo extremo, de 78 anos, salientando que “o
Campeonato do Mundo de 1966 é a confirmação universal desta geração
extraordinária”.As memórias de Inglaterra
começam com a vitória (3-1) diante da Hungria “com alguma sorte, com
golos de cabeça de José Augusto e José Torres após cantos”, percorrem o
“3-0 à Bulgária” e detêm-se na histórica partida com o Brasil, então
bicampeão em título e que contava com o inigualável Pelé.“Era
um Brasil em grande dificuldade. O Pelé magoou-se logo no primeiro jogo
[com a Bulgária], apesar de os brasileiros dizerem que nós é que o
magoámos. Isso foi tudo conversa, desculpas. Eu faço um golo de cabeça,
ganhámos esse jogo, somos apurados e vamos por aí fora. Discutimos as
meias-finais com a Inglaterra, que estava a jogar em casa, perdemos, mas
conseguimos uma medalhazinha, com um terceiro lugar, diante da então
União Soviética, com Yashin na baliza”, lembrou Simões.Aquele
que era um dos mais novos daquela seleção, então com 22 anos,
recorda-se “perfeitamente” do único golo que apontou nesse Mundial,
iniciando precisamente o triunfo por 3-1 sobre o Brasil, desde logo por
ter assinado um tento incomum face à baixa estatura que tinha.“Levanta-se
a questão de eu ter feito um golo de cabeça a um guarda-redes de 1.90
metros, que era o Manga. Eu inicio a jogada do lado esquerdo e venho
para dentro. O Eusébio faz uma diagonal entre o lateral e o central, eu
meto-lhe a bola, ele faz um centro/remate que o Manga não consegue
encaixar. A bola bate-lhe no peito e vem direita a mim. Eu faço-lhe um
chapéu e corro para abraçar alguém. Eu tinha de partilhar aquele
deslumbramento. Uma das melhores coisas da vida é partilhar e eu corri,
tinha de abraçar alguém, como que dizendo ‘vejam, eu fiz este golo de
cabeça’”, contou o ‘magriço’.Passada a
fase de grupos, Portugal ultrapassou a Coreia do Norte no quartos de
final, depois de uma épica reviravolta (5-3), antes de se deparar com os
anfitriões nas meias-finais. A Inglaterra, de Gordon Banks, Bobby
Moore, Nobby Stiles ou Bobby Charlton, autor dos dois golos que ditaram a
eliminação lusa (2-1).No entanto, os
desempenhos inesperados de Portugal até esse jogo levaram os ingleses a
‘mexer cordelinhos’ para alterar o local do encontro para Wembley, o que
acabou por contribuir para as dificuldades sentidas pela equipa das
‘quinas’, que também teve culpa própria, segundo Simões.“O
regulamento era muito claro. Quem ficasse em primeiro lugar no grupo
não sairia da zona para ir jogar numa cidade diferente. Jogaríamos em
Liverpool ou Manchester. Houve um descuido nosso. Fomos de comboio [para
Londres], mas o comboio chegou muito tempo antes. Lembro-me de estar
sentado nas escadas das bancadas [de Wembley], à espera da hora do jogo.
Em vez de chegarmos uma hora antes do jogo, chegámos 2:30 horas antes.
Houve um desgaste desnecessário, que não aconteceria se não nos
tivéssemos deslocado. Mas não se pode tirar mérito à seleção inglesa,
que era uma excelente equipa e jogou bem contra nós”, referiu.Na
sequência da eliminação frente à Inglaterra - que viria a conquistar o
troféu, ao vencer a RFA na final (4-2, após prolongamento) -, a seleção
portuguesa disputou o jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares
com a União Soviética, vencendo por 2-1 e assegurando o terceiro posto
do pódio, naquele que foi o melhor desempenho de uma formação lusa num
Mundial.