“Lutei muito para criar oportunidades para mim. Agora gostava de criar oportunidades para os outros”
26 de jul. de 2026, 08:00
— Susete Rodrigues
Vanessa Canto, nasceu no Juncal, Praia da Vitória, ilha Terceira, numa freguesia perto da Base das Lajes, a que chamam de ‘América Pequenina’. A presença norte-americana fazia-se sentir na música, na televisão, nos hábitos e na forma como se olhava para o mundo. O pai trabalhava na Base e, mais tarde, criou um negócio de automóveis. Na sua infância nunca faltou o contacto com essa influência americana. É a mais nova de quatro irmãos e lembra-se de crescer com uma liberdade que hoje considera rara. Conta-nos que é “a primeira da família e a única a ir estudar para fora”. A área de Economia parecia lógica. O negócio do pai fazia acreditar que iria regressar à ilha para dar continuidade e um professor de Economia reforçou essa convicção. A candidatura resumiu-se a uma única opção, Economia, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. No entanto, Vanessa Canto não imaginava que deixar os Açores pudesse ser tão difícil: “Lembro-me de ter muitas dessas conversas e ainda hoje em dia as partilho, as pessoas não sabem o quão duro é para os açorianos abandonarem os Açores, a sua ilha. Apesar de querer muito sair, foi um choque gigante, foi tremendo”. Pese embora ter no Porto a irmã, ainda assim, nunca conseguiu sentir que aquela cidade fosse verdadeiramente sua. Conta que “telefonava para o meu pai e ele dizia: ‘Vanessa, se tu quiseres vir embora, vem embora’ e, ficava mais descansada porque tinha essa liberdade. Se não conseguisse mais, vinha-me embora”. Por isso, “a faculdade foi feita rápida. Nunca chumbei a nada, mas foi por querer despachar aquilo”, disse com boa disposição, acrescentando que “fui desafiada a fazer um mestrado em Economia Social e disse que não, porque não queria mesmo continuar essa ligação à faculdade”. Foi precisamente enquanto estudava Economia que a dança começou a ocupar um espaço na sua vida. Afirma que “essa minha relação de infância com a questão americana, com os vídeos, com a MTV, houve sempre qualquer coisa ali que nunca experienciei, porque não havia na Terceira (...)”. Quando chegou ao Porto procurou escolas de dança e encontrou uma professora que mudaria a sua vida. Adianta que “foi aí que fiquei com o bichinho de que: ‘como é que era se um dia fizesse isso da vida?’”. No entanto, ainda foi a algumas entrevistas e houve uma que “foi engraçada porque me perguntaram porque não ia dançar e lá disse que havia começado muito tarde, há muitos bailarinos e questionaram-me: ‘sabes quantos economistas existem no mundo?”. Ora, uma questão que fez Vanessa Canto pensar. Depois “fui desafiada a ir para Nova Iorque para um Programa de Formação na Peridance Center”. Quando contou ao pai que queria abandonar a Economia e tentar a dança, recebeu uma resposta que recorda com carinho, isto porque o pai tinha-lhe oferecido um carro: “Ele disse-me para devolver o carro, ‘vendo-o, faço dinheiro com ele e tu desenrascas-te em Nova Iorque’”, contou entre risos. Um gesto de confiança que levou Vanessa Canto a olhar para dança de outra forma porque “foi sempre um hobby e ali comecei mais a sério”. Acabou por ficar dois anos e meio, “imersiva na minha cultura de dança que é o hip-hop. Foi por isso que escolhi Nova Iorque”. Nova Iorque revelou-se o contrário da imagem que tantas vezes se tem. Diz-nos que é uma cidade “muito difícil. Primeiro, o custo de vida é gigante, as rendas das casas, os transportes são muito caros. Passeava cães para ter algum dinheiro enquanto fazia o programa”, disse, sublinhando que em Nova Iorque, “as pessoas estão lá com objetivos muito específicos, para singrarem em alguma coisa na vida. É muito o ‘if you make it here you make it anywhere’. Ou seja, não há sentimentos de comunidade, não há entreajuda”. Com todo o conhecimento que adquiriu em Nova Iorque regressa ao Porto e “começo a dar aulas em Portugal e em Vigo, fazendo também outras coisas, como competições de hip-hop, organizar um festival de hip-hop e fiquei aí bastantes anos”. Foi também nessa altura que descobriu outra dimensão da dança, o trabalho com pessoas com necessidades especiais. Contudo, crescia uma sensação de que “estava a dedicar toda a minha energia a comunidades que não eram minhas”. Quando chegou a pandemia regressou à Terceira apenas para passar alguns dias, mas acabou por ficar. Instalou a sua empresa no Terinov, começou a dar aulas e “a criar laços que faziam sentido. Estava perto da minha família, tudo ganhava forma”. Ao mesmo tempo aproximou-se de São Miguel, através do Festival Paralelo e das amizades com Catarina Medeiros e Maria João Gouveia, surgindo os primeiros convites para colaborar e mais tarde o convite para integrar o 37.25. Refere que “toda a parte estrutural da minha vida começou a ficar cá, apesar da minha família estar na Terceira, mas é sempre mais pertinho, por isso não custa nada”. É com muito orgulho que nos fala do 37.25, um “coletivo que tem 13 anos de existência, já teve muitas transformações, que é estrutural aos Açores, mas que nunca ninguém dos Açores tomou atenção quão estrutural é. Com a minha chegada, e também o meu entusiasmo por ser nova no coletivo, conseguimos ter um apoio estrutural, ter um espaço - que é onde estamos hoje - ter apoio da DGArtes”. (...) É precisamente aqui que surge um tema, também ele transversal aos Açores, a dificuldade em reter talento na Região, principalmente nas artes. “Muitos bailarinos formam-se fora, querem voltar, mas não têm como”, disse para explicar que um dos grandes objetivos do 37.25 “passa por criar contratos para bailarinos açorianos que desejam regressar às ilhas”. Nesse momento o 37.25 “acaba por ser um berço de retoma de bailarinos açorianos, que nos orgulha muito. Nesses últimos dois anos, temos lhes chamado para integrarem projetos cá. Isso orgulha-me muito, termos essa capacidade de acolher pessoas que querem voltar a casa - sei que muitas vezes é uma das razões pela qual ficamos presos numa cidade algures - só porque não temos essas oportunidades”, frisando que “lutei muito para criar oportunidades para mim. Agora gostava de criar oportunidades para os outros”. Em termos de realização de projetos, Vanessa Canto reconhece as limitações técnicas, a escassez de equipamentos especializados e os enormes obstáculos para fazer circular espetáculos entre ilhas ou levar produções açorianas ao continente, mas existe uma coisa boa que é “a liberdade criativa na sua plenitude. Ninguém nos diz que não podemos fazer determinada peça”. Por outro lado, valoriza profundamente o trabalho desenvolvido com instituições como a Associação de Paralisia Cerebral de São Miguel, a Alternativa, Aurora Social e Amizade 2000. Nessa vertente, a dança deixa de ser o centro, o importante é a continuidade e a presença, quer da Vanessa Canto quer da Catarina Medeiros, é “verdadeiramente transformadora”. Por isso, a longo prazo, partilha um sonho comum com Catarina Medeiros, o de “criar uma companhia de dança composta por pessoas com necessidades especiais”. No plano pessoal, Vanessa Canto gostava de criar um “um trabalho onde consiga colocar tudo aquilo que ainda sinto que está disperso”, a par daquele que já nos confessou, o de “continuar a abrir caminho para quem vem atrás, quero que bailarinos açorianos possam regressar a casa sem terem de abdicar da profissão”.Quando lhe perguntamos se prefere ser bailarina, professora ou coreógrafa, a resposta surge sem hesitação: “Ser bailarina é a forma como vejo um bocadinho o mundo. Nunca me isolo de ser bailarina, mesmo quando sou intérprete de outra pessoa, esta pessoa está a projetar ou a idealizar uma relação que tenho com a minha dança (...)”. Curiosamente é também durante a dança que lhe surgem as ideias, ou seja, “tenho muitas epifanias quando estou a dançar, desde candidaturas que estou a criar, coisas que estou a coreografar, aulas que estou a dar, o meu projeto de empreendedorismo. As epifanias vêm sempre deste lugar de bailarina. Então, este é o campo que tento manter sempre”. É, pois, nesse lugar que encontra a sua relação com o corpo, com o mundo e consigo própria.