Lotaçor leva Literacia do Oceano às comunidades piscatórias

Hoje 10:21 — Rui Jorge Cabral

A Lotaçor criou e está a implementar o projeto ‘Porto Pedagógico - Literacia do Oceano’, que pretende promover a partilha de conhecimento com as comunidades piscatórias das nove ilhas Açores.Este projeto tem como principal objetivo reforçar a compreensão sobre práticas de pesca sustentável, a valorização do pescado, a pesca no mundo,  a Política Comum de Pescas da União União Europeia e as medidas de conservação no mar dos Açores, com destaque para as Áreas Marinhas Protegidas.A Lotaçor está a desenvolver este projeto em conjunto com o Instituto Okeanos, a Federação das Pescas dos Açores, o Observatório do Mar dos Açores e o programa Blue Azores.Com sessões dinamizadas nas nove ilhas junto das comunidades piscatórias, o projeto  ‘Porto Pedagógico - Literacia do Oceano’ já teve sessões realizadas em quatro ilhas, sendo que na mais recente ação na ilha do Pico estiveram mais de 20 pessoas.  Esta semana, o projeto rumará às Flores e Corvo.Em declarações ao Açoriano Oriental, Luís Rodrigues, da Lotaçor, que é o coordenador do projeto, afirma que “trabalhamos para uma mobilização ativa da sociedade, não só com escolas, universidades e outras instituições ligadas ao ensino, mas também, internamente, na formação dos funcionários da empresa”.E entre vários projetos dedicados à literacia do oceano, “a Lotaçor desenhou o projeto ‘Porto Pedagógico:  Literacia do Oceano’, que foi reconhecido como ‘Ação da Década’ pela Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”, salienta Luís Rodrigues.Conforme explica o coordenador do projeto, “pela relação diária que temos com pescadores e comerciantes de pescado, em todas as comunidades piscatórias dos Açores, o objetivo é tornar a Lotaçor um veículo de comunicação no esclarecimento à comunidade piscatória, que se traduza em  mudanças de atitude e ação efetiva na comunidade piscatória”.Refira-se que para além de ações de formação nas nove ilhas, estão a ser desenvolvidos um conjunto de recursos educativos e de interesse pedagógico.O papel dos parceirosEm declarações ao Açoriano Oriental, Filipe Mora Porteiro, subdiretor do Okeanos, refere que um dos pilares mais relevantes deste Instituto da Universidade dos Açores é o da transmissão do conhecimento produzido pelos seus investigadores para a sociedade.Nesse sentido, explica, “a literacia do oceano é uma ferramenta de comunicação que permite criar massa crítica, no seio dos grupos de interessados e das sociedades, para a tomada de decisões individuais e coletivas mais conscientes e informadas”.Filipe Mora Porteiro considera igualmente ser muito importante “capacitar os funcionários da Lotaçor com informação credível, para serem veículos de comunicação fundamentada aos outros elementos da fileira da pesca, nomeadamente aos pescadores”.Em causa estão temas como as especificidades dos ecossistemas oceânicos ou a importância de práticas sustentáveis e da implementação de mecanismos de conservação marinha.Por outro lado, Inês Martins, investigadora do Instituto Okeanos, afirma que a parceria com a Lotaçor neste projeto “permite criar uma ligação muito importante entre investigação científica, setor das pescas e educação”.Isto porque, explica, “acreditamos que a literacia do oceano é fundamental numa região arquipelágica como os Açores, porque conhecer o mar, os recursos que dele dependem e a sua sustentabilidade ajuda a formar cidadãos mais informados, conscientes e envolvidos na proteção dos ecossistemas marinhos”.Também em declarações ao Açoriano Oriental, Maria João Cruz, especialista em conservação e pescas do programa Blue Azores, destaca que a boa implementação da Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores “só é possível com o envolvimento ativo das comunidades locais, em particular das comunidades piscatórias”.Sobre o projeto ‘Porto Pedagógico - Literacia do Oceano’, Maria João Cruz entende que “estes encontros têm permitido criar espaços de diálogo direto, onde é possível discutir desafios, esclarecer dúvidas e partilhar perspetivas”, salientando que o programa Blue  Azores “ vê a literacia do oceano como uma ferramenta essencial  para promover uma cultura oceânica mais informada, participativa e alinhada com a valorização do mar dos Açores e dos recursos que dele dependem”. Para Jorge Gonçalves, presidente da Federação das Pescas dos Açores, “a literacia do oceano assume um papel estratégico, sobretudo numa região como os Açores, onde muitas atividades económicas dependem diretamente do mar”.Por isso e para o presidente da Federação das Pescas dos Açores, “promover a literacia do oceano junto das comunidades ligadas às pescas, à transformação de pescado, ao turismo marítimo e a outras atividades económicas, significa capacitar profissionais e empresas para compreenderem melhor os ecossistemas marinhos e a importância da sua preservação”.Segundo Jorge Gonçalves, projetos como o ‘Porto Pedagógico - Literacia do Oceano’ contribuem “com conhecimento científico que permite aproximar a investigação das necessidades reais do setor produtivo, promovendo decisões mais informadas e baseadas em evidência científica”.Até porque, conclui o presidente da Federação das Pescas dos Açores, “esta ligação entre ciência e atividade económica é essencial para enfrentar desafios como as alterações climáticas, a sobreexploração de recursos e a preservação da biodiversidade marinha”. E a literacia do oceano no setor produtivo das pescas, para Jorge Gonçalves, “não é apenas entendida como um processo educativo, mas também como uma ferramenta de valorização económica, inovação e sustentabilidade, essencial para garantir o futuro das atividades ligadas ao mar nos Açores”.Por fim, Carla Dâmaso, coordenadora do Observatório do Mar dos Açores, lembra que esta é uma “oportunidade de reforçar o trabalho que tem vindo a desenvolver-se nas áreas da educação ambiental, comunicação de ciência e valorização do conhecimento ligado ao mar”.Para Carla Dâmaso, “esta colaboração permite também dar maior visibilidade ao conhecimento científico produzido nos Açores e criar pontes entre investigadores, setor das pescas, escolas e sociedade civil, contribuindo para uma cultura oceânica mais consciente e participativa”.Os desafios da literacia do  oceanoNo entender de Luís Rodrigues, coordenador do projeto  ‘Porto Pedagógico - Literacia do Oceano’ , os desafios e dificuldades para uma melhor literacia do oceano “não são exclusivos da comunidade piscatória, que está muito mais preocupada e desperta para a proteção do oceano”, embora reconheça que existem “questões culturais que tornam incompreendidas algumas regras, muitas vezes desajustadas à realidade dos Açores”.Mas apesar disso, Luís Rodrigues afirma não ter dúvidas de que o projeto tem sido importante, “despertando consciências” e sensibilizando para uma pesca sustentável e responsável, no respeito pelas medidas de conservação. E um sinal disso, afirma Luís Rodrigues, “tem sido o interesse de um número cada vez maior de participantes. Nesse sentido, o coordenador do projeto “Porto Pedagógico: Literacia do Oceano” revela que “já por várias vezes este projeto foi convidado para ir ao continente e vamos receber uma escola de Lisboa, que nos visita pelo projeto”. A isto, junta-se ainda o convite de uma fundação internacional ligada à pesca “para ensaiar a mesma metodologia em comunidades piscatórias noutros países”.Questionado sobre em que aspeto ou aspetos os pescadores açorianos ainda precisam de evoluir para se tornarem os maiores defensores e beneficiários das áreas marinhas protegidas, Luís Rodrigues responde que “precisamos todos de evoluir: cientistas, produtores, comerciantes, consumidores, políticos, todos somos responsáveis pela proteção e conservação do oceano”.Por fim, questionado sobre que medidas ainda precisam ser tomadas ou que práticas precisam ser implementadas para tornar a pesca açoriana mais sustentável e o pescado mais valorizado, o coordenador do projeto  ‘Porto Pedagógico - Literacia do Oceano’ é claro na resposta: “o diagnóstico está feito e as intenções anunciadas, falta um investimento robusto em literacia do oceano e coragem política”.