Livros e obras de arte com cheiro a bolo de tijolo
Galeria e Biblioteca Paim, na ilha do Pico
15 de fev. de 2018, 18:32
— Célia Machado
Esta
é a casa há muito aguardada por Manuel Lopes Azevedo, advogado no
Canadá e "emigrante em part-time",
enquanto está no estrangeiro. E quando está no Pico o que é? "Sou
picaroto", responde-nos. No fundo, Manuel Azevedo é picaroto
onde quer que esteja, uma identidade, uma maneira de ser e de sentir
que não se coloca em modo de pausa.
Aqui
reúne as suas coleções de livros e de obras de arte, especialmente
pinturas, com origens bem distintas e convida a música a entrar para
espetáculos intimistas.
"O
meu avô Paim é a única pessoa da minha infância que me lembro de
ver a ler livros", recorda, a partir do Canadá, onde se
encontra atualmente. Até aos sete anos viveu na freguesia da
Ribeirinha, com os pais, mas os verões eram passados em casa dos
avós maternos, os Paim, em Santa Luzia, no edifício em pedra que,
lentamente, conseguiu recuperar e abrir ao público. "Utilizei
matéria-prima do Pico e também o saber de alguns familiares, das
mãos dos quais saíram algumas peças que fazem parte do restauro da
casa, como prateleiras e dobradiças de janelas", diz-nos.
Esta
é, assim, uma casa de afetos, de homenagem aos avós maternos, de
reencontro com a infância aqui passada, de reunião familiar e é,
também, a sua casa, o seu poiso no Pico. Na cozinha, em são
convívio, faz-se o bolo de tijolo, que, quente e cheiroso, é levado
para a sala principal, mesmo ali do lado, sem porta a separar, onde
funciona a galeria e biblioteca. Não é, por isso, de admirar que a
Galeria e Biblioteca Paim cheire a bolo de tijolo e tenha o ambiente
caloroso com a lenha a crepitar no forno.
"Abri
este espaço por prazer, para honrar o meu avô, para receber os meus
amigos, para proporcionar um recanto de sossego a quem quiser ler um
livro e para lembrar as nossas tradições, daí não ter
eletricidade", explica.
A
arte tem-no acompanhado ao longo da vida: gosta de colecionar peças,
de estar rodeado de livros, de procurar obras em alfarrabistas.
Inaugurada
a 28 de maio de 2017, durante o Azores Fringe Festival, a Galeria e
Biblioteca Paim abre as portas várias vezes por ano, sempre que
Manuel Azevedo regressa à terra; entre idas e vindas, é o amigo
Carlos Gomes quem tem a incumbência de servir de cicerone, mas
apenas mediante marcação prévia.A
coleção de livros continua a aumentar. Há obras em português e em
inglês e Manuel Lopes Azevedo gostaria de ampliar a coleção de
autores açorianos. Para os mais novos, há sempre livros disponíveis
numa caixa, destrancada, colocada junto à galeria. Desta forma, a
qualquer hora do dia ou da noite, crianças e jovens podem levar um
livro e devolvê-lo, depois da leitura, ou trocá-lo por outro à
escolha.
A
casa situa-se junto à Igreja de Santa Luzia e ostenta a estrela de
David na porta principal, em homenagem à avó paterna, que tinha o
apelido de judia.
O
espaço Paim volta a funcionar em força a partir da abertura oficial
do próximo Azores Fringe Festival, com direito a chamarritas,
tributo musical a Leonard Cohen e uma exposição de pintura dedicada
ao sexo feminino.