Linha SOS Estudante recebe mais chamadas de adultos do que de estudantes
10 de out. de 2025, 12:09
— Lusa/AO Online
Inaugurada em 1997
em Coimbra, a linha de apoio emocional e prevenção do suicídio foi
criada devido a estudantes universitários que se sentiam isolados, mas
rapidamente alargou o público para todos que precisam de apoio
emocional.Em declarações à agência Lusa no
Dia Mundial da Saúde Mental, a propósito de alertas de especialistas
para o aumento de comportamentos autolesivos entre os jovens, a
presidente da linha explicou que a maioria das chamadas (52%) é feita
por adultos (36-64 anos) e idosos (17%). “Só
depois vêm os jovens adultos, estudantes, e muito poucos adolescentes”,
comentou Rita Neves, voluntária no serviço desde 2021.Sobre
se há uma explicação para este facto, a responsável disse que não será
por falta de divulgação da linha, que é “muito forte” nas faculdades e
nas escolas, mas por os estudantes não estarem “tão abertos a pedir
ajuda ou ligar para linhas de apoio”.
Segundo a responsável, a linha registou “um aumento exponencial” no ano
letivo 2024-2025, mais de 100%, totalizando 1.799 chamadas, o que disse
indicar que “as pessoas estão a precisar cada vez mais de falar, ou que a
linha está a chegar a um público cada vez maior”.Apesar
de ser uma linha de apoio emocional e prevenção do suicídio, a maioria
das chamadas não está relacionada com o suicídio, mas com relações
amorosas, familiares, de amizade, e solidão.A
SOS Estudante (915246060; 969554545; 239484020) também recebe muitas
chamadas de silêncio, de pessoas que não conseguem se expressar, mas,
sublinhou, só o facto de saber que há alguém do outro lado já acalma e
encoraja a tentar ligar novamente. “Há
também muitas pessoas que ligam apenas para falar sobre o seu dia”,
sendo muitas vezes a primeira vez que conversam com alguém nesse dia.“Nós consideramos que a solidão acaba por estar presente em praticamente todas as chamadas”, comentou Rita Neves. Sobre
casos graves, como o recente suicídio de dois alunos na Escola
Secundária de Castro Daire, em Viseu, Rita Neves defendeu que a
comunidade precisa de acompanhamento especializado por profissionais de
saúde mental.“Não é só quem está mais próximo, mas toda a escola, porque isto afeta todos que estão à volta do que aconteceu”, vincou.Rita
Neves explicou que as linhas de apoio oferecem apoio primário. “No
nosso caso, atendemos entre as oito da noite e a uma da manhã e não há,
por norma, psicólogos disponíveis”.“É um
apoio primário para uma pessoa que esteja em crise ou que precise mesmo
de falar naquele momento, mas nunca vai substituir o apoio psicológico”,
acrescentou. A linha conta atualmente
com 33 voluntários, todos estudantes de diferentes áreas do ensino
superior de Coimbra, que passaram por “um longo processo de
recrutamento” e “uma formação de 30 horas que os capacita para atender
todo o tipo de chamadas”. “Somos
todos voluntários, não recebemos nada em troca além da gratificação de
saber que estamos a fazer a diferença”, afirmou a presidente, que deixou
de atender chamadas após assumir o cargo, por motivos de anonimato.
Recordando o tempo que esteve no atendimento, Rita Neves disse que “o
mais difícil” é conseguir distanciar-se e perceber que a ajuda que podem
dar “é bastante limitada”, mas, salientou, os voluntários têm apoio
psicológico profissional sempre que necessitam.
“Estamos a falar através de um telefone e, apesar de acreditarmos
muito no poder da escuta ativa, a verdade é que nem sempre está ao nosso
alcance salvar a vida de alguém”, reconheceu, desabafando: “Há chamadas
que nunca se esquecem”. Nesta data, Rita
quis deixar a mensagem de que “pedir ajuda é um ato de coragem” e que
“estar atento a quem nos rodeia pode salvar vidas”.