Linces "avós, mães e netas" espalham-se pela Península e quebram tabús há 15 anos
16 de mai. de 2025, 11:52
— Margarida Pinto/Lusa/AO Online
A alegria que
António não consegue esconder dos jornalistas numa visita guiada esta
semana pela serra é partilhada por uma comunidade que abrange
cientistas, técnicos de conservação animal e autoridades locais,
nacionais e europeias, mas também associações cinegéticas, agricultores
ou empresários ligados ao turismo.O
projeto de recuperação do lince ibérico, que estava reduzido a menos de
100 animais e ameaçado de extinção no início deste século, envolve
governos e privados de Espanha e Portugal, arrancou em 2002, financiado
com programas europeus LIFE, e fez-se "sempre em cooperação com as
populações", com as associações de caçadores, por exemplo, a assumirem
um papel fundamental, num processo em "se quebraram vários tabus", nas
palavras dos responsáveis do Lynxconnect, o LIFE em curso, para o
período 2020-2025.O exemplo está nos
terrenos que António e responsáveis do Lynxconnect percorreram esta
semana com jornalistas e que uma população de linces escolheu para se
instalar e reproduzir: uma reserva de caça e uma reserva natural,
vizinhas, em plena Serra Morena.Os linces
Kiowa, Kaplán e Kairós, nascidos em cativeiro, foram libertados nesta
zona em 2014 e as primeiras fêmeas escolheram os terrenos da reserva de
caça para se instalar, porque aí encontraram disponibilidade de coelho, o
animal de que se alimentam. Miguel Ángel
Sánchez, responsável pela reserva, agradece a presença dos 28 linces que
hoje andam pela propriedade: "Expulsam a raposa, que é o nosso maior
inimigo".Um lince adulto precisa, em
média, de um coelho por dia para se alimentar e só caça os animais que
come, ao contrário das raposas e outros predadores carnívoros
"generalistas”."Uma raposa é capaz de
matar 25 perdizes em 10 metros. E mastiga-as e cospe-as sem as comer.
Era um bocado resistente, mas com o passar dos anos tive de dar razão ao
lince, que aquilo que faz é ajudar", realçou Miguel Ángel Sánchez."A
componente do setor privado, o apoio que sempre tivemos do setor
privado, das propriedades privadas, do setor cinegético, foi
fundamental. As populações bem geridas ou abundantes de coelho dependem,
muitas vezes, de estarem em territórios cinegéticos. Foi um setor
básico desde o início e continuamos a trabalhar em conjunto", disse o
biólogo Paco Sánchez, da Direção-geral de Ambiente e Biodiversidade do
governo regional de Castela-La Mancha, um dos parceiros do Lynxconnect.O
lince depende do coelho para sobreviver e um habitat com
disponibilidade de coelhos revelou-se essencial para os bons números da
instalação, reprodução e crescimento das populações do felino ibérico.Em
20 anos de projetos e 15 de reintrodução dos animais nascidos em
cativeiro em zonas da Península Ibérica que historicamente tinham
habitado, o número total de linces ibéricos passou de menos de 100 a
mais de 2.000 em 2023 e, em 2024, a espécie deixou de ser classificada
"em risco" para passar a "vulnerável" na Lista Vermelha elaborada pela
União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).Os
únicos dois pequenos grupos de linces que no início do século
sobreviviam na Andaluzia deram origem a várias populações do felino nas
regiões espanholas da Andaluzia, Castela La-Mancha e Múrcia e no sul de
Portugal, no Vale do Guadiana, onde em 2023 foram identificados 291
animais.O processo passou inicialmente
pela reprodução em cativeiro e depois libertação de linces na natureza.
Para chegar a um "estado de conservação favorável", será necessário
chegar a entre 4.500 e 6.000 indivíduos, com pelo menos 1.100 fêmeas
reprodutoras (eram 406 em 2023) e formação de novas populações.Em
paralelo, é agora necessária "uma gestão genética integral do conjunto
da espécie" porque "a viabilidade destas novas populações dependerá de
que se assegure uma diversidade genética suficiente e que se evite a
acumulação de consanguinidade", explicaram, num documento do
Lynxconnect, os investigadores, especialistas em genética, José A. Godoy
e Alejando Rodríguez, da Estação Biológica de Doñana (CSIC - Conselho
Superior de Investigação Científica de Espanha), que integra o projeto.O
texto é também assinado por José Jiménez, do Instituto de Investigação
em Recursos Cinegéticos de Espanha.Ligar
as populações de linces entre si, "para haver esse intercâmbio
genético", é precisamente um dos objetivos do programa LIFE em curso
(Lynxconnect), realçou o biólogo Paco Sánchez."A
diversidade genética no caso das populações reintroduzidas é muito
boa", acrescentou, sublinhando que o projeto de recuperação do lince
teve sempre na base um trabalho científico, que tentou resgatar a
genética da espécie a partir dos dois pequenos grupos de animais que
resistiram à extinção, primeiro com as reproduções em cativeiro e agora
também com a translocação de animais entre territórios.No
terreno, isto traduz-se numa monitorização permanente que envolve
técnicos e vigilantes da natureza. Vão controlando os movimentos dos
linces aos quais foi colocado um colar, recolhem amostras de ADN
(sobretudo excrementos) e capturam animais para serem sujeitos e
controlos veterinários para assim se avaliar o estado de saúde das
populações ou para transferir um exemplar para outro território, após
uma quarentena de pelo menos um mês.As
quarentenas, controlos veterinários ou recuperação de doenças e lesões
dos linces fazem-se em locais como o Centro de Recuperação de Fauna
Selvagem “El Chaparrillo”, perto de Ciudad Real, em Castela La-Mancha.Passaram
por este centro 208 linces vivos desde 2014, o ano em que começaram ser
libertados em Castela-La Mancha. Segundo uma das veterinárias do
centro, Rocío Gómez Sánchez, foram, maioritariamente, "animais saudáveis
para translocar e fazer vigilância sanitária".Esta
semana, estavam no "EL Chaparrillo" quatro linces, dois em quarentena
para serem mudados de território e fortalecerem a genética do novo grupo
em que se vão integrar, uma fêmea a recuperar de um ferimento e um
quarto que é já residente permanente, por ter uma lesão irrecuperável.
Os que chegam feridos foram, maioritariamente, atropelados em estradas."É
um animal impressionante em todos os aspetos e muito especial no
momento de ser manuseado, tratado e até libertado", disse Rocío Gómez
Pérez, sem esconder o fascínio pelo "maior felino da Península Ibérica",
que esteve prestes a desaparecer.Sendo
uma espécie que esteve à beira da extinção, "ao longo destes anos,
investigou-se muito, publicou-se muito e houve surpresas" sobre o que se
sabia ou pensava saber sobre o lince, afirmou Paco Sánchez.Socialmente,
"não é tão solitário como parece" e "tem uma estrutura em que as fêmeas
costumam tentar permanecer ligadas ao território das mães", a par de se
manterem "relações sociais entre exemplares aparentados", exemplificou o
biólogo.Os cientistas estão também ainda a
fazer descobertas, por exemplo, a nível dos patógenos, "sobretudo em
populações que acabam de se estabelecer", ou das relações com outros
animais carnívoros."Há muito trabalho por
fazer", sublinhou Paco Sánchez, que insistiu em que o lince continua a
ter muitas ameaças, desde doenças ao perigo que são as estradas, e que
"é vertiginoso" pensar que "a sociedade em geral possa pensar que o
lince já está fora de perigo": "O lince não está salvo".