Líder do CDS insiste que nomeação de Centeno para BdP é “mau exemplo ao país”
8 de jul. de 2020, 13:11
— LUSA/AO online
"Estas plataformas giratórias em que os amigos
circulam pelos lugares no aparelho do Estado, onde temos mais do mesmo
com os mesmos, foi um dos motivos que me fez candidatar à presidência do
CDS-PP para mudar os hábitos e introduzir alguma renovação no sistema.
Parece-me que é um mau exemplo que está a ser dado ao país e CDS
reitera: à mulher de César não basta ser, é preciso parecer", disse
Francisco Rodrigues dos Santos.O líder do
CDS-PP, que falava aos jornalistas à margem de uma visita a uma fábrica
de ourivesaria localizada em Gondomar, no distrito do Porto, recordou
que o "CDS foi o primeiro partido a dizer que por uma questão de
princípio, não se pode passar de governante a governador", isto porque,
acrescentou, "o árbitro não pode passar a jogador"."Não
faz sentido que o ex-ministro Mário Centeno, que era responsável por
tutelar o setor financeiro e da banca, que tem motivado tantas
desconfianças dos portugueses, venha agora a passar de arbitro a
jogador. Não é legitimo, nem eticamente e moralmente aceitável
alimentar-se uma dúvida de que há conflito de interesses ou é colocada
em causa a autonomia e independência de uma entidade supervisora como é o
Banco de Portugal", referiu.Francisco
Rodrigues dos Santos frisou que este "não é um ataque pessoal ao
ex-ministro Mário Centeno", mas sublinhou a ideia de que "há
promiscuidade no poder político e nas entidades reguladoras", o que no
seu entender "tem provocado bastantes prejuízos aos bolsos dos
portugueses nos últimos anos"."Temos de
ter mecanismos e sistemas em Portugal que sejam transparentes e promovam
a confiança dos portugueses na política. Por isso é que o CDS propôs
que a nomeação do governador do Banco de Portugal devia ser realizada
pelo Presidente da República sob proposta do Governo e ouvida a
Assembleia da República", descreveu.O
presidente do CDS-PP voltou a defender que se deve aguardar pelo parecer
do Banco Central Europeu e disse, quanto a possíveis futuras votações,
que "se há partidos que têm problemas de coerência não é o CDS".Convidado
a explicar se com esta frase está a acusar algum partido de
incoerência, Rodrigues dos Santos foi direto na resposta ao acusar o
Bloco de Esquerda."Tem sido incoerente ao
longo dos últimos anos, critica as políticas governamentais ao nível da
economia e das finanças e aprova todos os orçamentos do Estado. Neste
caso votou o período de nojo de cinco anos para impedir a passagem de
governantes a governadores e agora na especialidade parece que vai
recuar (?). Enquanto acharmos que esse exercício de retórica teatral e
que roça a hipocrisia é rentável em Portugal teremos uma democracia com
muito pouca qualidade e teremos políticos que querem tentar fintar os
portugueses e estar bem com Deus e com o diabo", concluiu.Em
25 de junho, o Governo comunicou ao presidente da Assembleia da
República a proposta de nomear o ex-ministro das Finanças Mário Centeno
para o cargo de governador do Banco de Portugal.A
escolha de Centeno foi polémica, pelo facto de este responsável passar
quase diretamente do Ministério das Finanças (onde foi ministro até
junho) para o Banco de Portugal e, em 09 de junho, foi mesmo aprovado no
parlamento, na generalidade, um projeto do PAN que estabelecia um
período de nojo de cinco anos entre o exercício de funções governativas
na área das Finanças e o desempenho do cargo de governador.Contudo,
em 17 de junho a esquerda parlamentar (PCP e BE, sendo já sabido que PS
era contra) demarcou-se da intenção do PAN de estabelecer esse período
de nojo e, em 25 de junho, o parlamento suspendeu por quatro semanas a
apreciação na especialidade do projeto do PAN até chegar o parecer
pedido ao Banco Central Europeu (BCE), no mesmo dia em que o executivo
comunicou oficialmente a sua escolha. O
atual governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, termina hoje (08 de
julho) formalmente o segundo mandato à frente do banco central (onde
está há 10 anos), mas irá manter-se em funções até à tomada de posse do
sucessor.