Lesados do BES exigem em Espinho que Estado lhes devolva milhões de euros
Hoje 16:35
— Lusa/AO Online
O intervalo entre esses montantes
deve-se ao facto de a 22 lesados que ainda não recuperaram quaisquer
valores ser-lhes devido 10 milhões de euros, enquanto a outros 10.000
clientes, entre os quais 8.000 emigrantes, já terem sido devolvidos 50% a
75% das suas poupanças, mas continuarem em dívida valores “na ordem das
centenas de milhões de euros”.Esses
cálculos são da Associação Lesados Sistema Bancário (ALSB), que, numa
manifestação junto à Praia da Baía, localização escolhida precisamente
por distar apenas alguns metros da residência pessoal do
primeiro-ministro, defendeu que o Novo Banco, criado a partir da
extinção do BES, tinha fundos para restituir a todos os clientes as
verbas de que eram proprietários e que era ao Estado que cabia executar
essa devolução.“O Estado foi responsável
pela resolução do BES, tornou-se acionista do Novo Banco e tomou posse
de uma garantia — uma provisão constituída numa conta ‘escrow’,
fiduciária e irrevogável, conforme publicado no Diário da República —
criada exclusivamente para assegurar a devolução das poupanças aos
clientes lesados. Quem deve responder, portanto, é quem decidiu retirar o
dinheiro dessa conta ‘escrow’ do Novo Banco, desviando uma garantia
fiduciária e irrevogável criada especificamente para indemnizar os
lesados”, defendem Jorge Novo e António Silva, porta-vozes dos lesados.Explicando
que a conta bancária em causa foi criada por ordem do Banco de Portugal
especificamente para salvaguardar as poupanças dos clientes do antigo
BES, retendo assim “1.837 milhões de euros" até que as condições
combinadas no contrato fossem totalmente cumpridas por ambas as partes,
os dois responsáveis da ALSB afirmam que, há 12 anos, “foi um governo do
PSD que colocou milhares de famílias nesta situação”, pelo que “os
contribuintes não têm que suportar as consequências das ilegalidades e
das decisões que conduziram ao desaparecimento dessa garantia bancária”.“Agora
é o atual ministro das Finanças quem tem a responsabilidade de resolver
este problema, juntamente com o primeiro-ministro, que, na campanha
eleitoral, afirmou que, mal chegasse ao Governo, encontraria uma solução
para os lesados do BES”, diz António Silva.Realçando
que as famílias lesadas se encontram numa situação de “profunda
injustiça e incerteza” por estarem há 12 anos despojadas das “poupanças
que lhes pertencem por direito” e que, em muitos casos, representam “as
economias de uma vida inteira”, Jorge Novo declara que “é
incompreensível que o Estado continue sem apresentar uma solução".Os
porta-vozes da ALSB referem que, individualmente, cada lesado perdeu de
5.000 até cinco milhões de euros e insistem: “As poupanças em causa
encontram-se vencidas desde o momento em que o banco violou o perfil de
risco dos clientes, prestou informação falsa ou incompleta, e atuou em
manifesta desconformidade com a lei, praticando um ilícito gerador de
responsabilidade. Foi precisamente essa atuação que levou o Banco de
Portugal a mandar abrir uma conta ‘escrow’ que servisse de garantia aos
clientes e, como essa transitou para o Novo Banco quando o Estado vendeu
o BES, é ao Estado que cabe assegurar que os fundos dessa conta sejam
devolvidos aos seus legítimos proprietários”.Realçando
que, nesta fase, “todos os partidos estão do lado dos lesados exceto o
PSD”, Jorge Novo e António Silva lamentam o prolongar de uma situação
que “até já causou suicídios” e querem ver “reposta a justiça”, tanto
para com aqueles que nunca recuperaram nenhuma das suas poupanças, como
para aqueles que, embora tendo assinado acordos mediante os quais já
receberam 50% a 75% do seu dinheiro, o fizeram “quando não tinham
conhecimento de todas as irregularidades do processo nem da conta
‘escrow’”, pelo que “também devem ser defendidos”.Uma
das pessoas nessa situação é um carpinteiro octogenário que, preferindo
não ser identificado, contou hoje à Lusa: “Fui para África do Sul aos
25 anos, trabalhei sempre pelo menos 56 horas por semana, estive ativo
durante 49 anos e consegui poupar, ao longo da vida, 400.000 euros.
Duzentos mil ainda recuperei, mas o BES e o Novo Banco ainda me devem os
outros 200.000”.